A zooterapia, também conhecida como terapia assistida por animais, tem se mostrado uma abordagem complementar de grande relevância no desenvolvimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) e TOD (Transtorno Opositivo-Desafiador). Quando realizada com responsabilidade técnica, equipe capacitada e dentro das normas ambientais, inclusive com animais silvestres devidamente autorizados, essa prática pode promover avanços significativos no desenvolvimento emocional, comportamental e sensorial.
Crianças dentro do TEA, por exemplo, frequentemente apresentam desafios na comunicação social, na interação e na regulação sensorial. O contato mediado com animais favorece a redução da ansiedade, estimula o vínculo afetivo e fortalece habilidades como atenção compartilhada, contato visual e linguagem funcional. O animal não julga, não impõe expectativas sociais complexas e oferece uma interação previsível — algo extremamente regulador para o cérebro autista.
No caso do TDAH, a zooterapia contribui para o aumento da atenção sustentada, do autocontrole e da responsabilidade. Atividades estruturadas envolvendo cuidado, observação e manejo supervisionado dos animais estimulam funções executivas, planejamento e organização, além de favorecerem a diminuição da impulsividade.
Para crianças com TOD, o vínculo com o animal pode funcionar como uma ponte terapêutica. O animal não representa uma figura de autoridade, o que reduz a resistência e facilita o engajamento nas propostas terapêuticas. A partir dessa conexão, é possível trabalhar regras, limites e empatia de forma mais leve e significativa.
Por que há tanto interesse por animais silvestres como cobras, lagartos e tartarugas?
É comum observar um fascínio intenso de muitas crianças — especialmente neurodivergentes — por animais como cobras, lagartos e tartarugas. A justificativa científica para esse interesse envolve fatores evolutivos, neurológicos e sensoriais.
Do ponto de vista evolutivo, o cérebro humano desenvolveu, ao longo da história, uma atenção privilegiada para estímulos potencialmente relevantes à sobrevivência, como serpentes e outros répteis. Pesquisas em neurociência demonstram que esses animais ativam rapidamente estruturas como a amígdala cerebral, responsável pelo processamento emocional e pela detecção de ameaças. Esse “alerta ancestral” pode se manifestar tanto como medo quanto como curiosidade intensa — especialmente quando o contexto é seguro.
Sob a perspectiva sensorial, répteis possuem características muito específicas: movimentos lentos e previsíveis (como no caso das tartarugas), padrões visuais repetitivos nas escamas, texturas diferenciadas e ausência de vocalizações intensas. Para muitas crianças com TEA, por exemplo, essa previsibilidade comportamental e a menor complexidade social tornam a interação mais confortável do que com animais muito agitados ou expressivos.
Além disso, o interesse por animais considerados “diferentes” ou “incomuns” pode estar relacionado ao perfil cognitivo de algumas crianças neurodivergentes, que apresentam hiperfoco ou interesses específicos intensos. O estudo detalhado de espécies, habitats, alimentação e comportamento desses animais pode estimular memória, linguagem, categorização e pensamento científico.
Há também o fator do controle ambiental: répteis, quando manejados adequadamente, não invadem o espaço de forma abrupta, não pulam, não latem, não produzem sons inesperados — o que reduz sobrecarga sensorial. Isso favorece a sensação de segurança e previsibilidade.





Quando falamos especificamente de animais silvestres, o cuidado deve ser redobrado, respeitando rigorosamente as legislações ambientais e o bem-estar animal. Em contextos autorizados e educativos, a interação pode ampliar o repertório sensorial da criança, despertar curiosidade científica, promover consciência ambiental e estimular o respeito à vida e à biodiversidade.
Além dos ganhos comportamentais e cognitivos, há também impactos neurobiológicos importantes: o contato com animais favorece a liberação de ocitocina — hormônio associado ao vínculo e à sensação de segurança — e contribui para a redução do cortisol, hormônio do estresse. Isso significa que estamos falando não apenas de um recurso lúdico, mas de uma intervenção que dialoga diretamente com a regulação emocional e o funcionamento cerebral.
É fundamental ressaltar que a zooterapia não substitui tratamentos convencionais, mas atua como abordagem complementar, integrada a um plano terapêutico multidisciplinar.
Quando conduzida com ética, ciência e responsabilidade, a zooterapia se torna um poderoso instrumento de conexão, desenvolvimento e transformação — tanto para a criança quanto para a família. É o encontro entre natureza, afeto e neurodesenvolvimento promovendo caminhos mais leves e humanizados para o cuidado.
Dra Pollyana Vieira
Neurocientista Especialista em Comportamento e Desenvolvimento Humano
SBNeC n° 16557/21
Psicanalista
Analista do Comportamento – ABA














Adorei esta abordagem. Tema muito importante.
Parabéns pela matéria.
A zooterapia, ou Terapia Assistida por Animais (TAA), é muito mais do que apenas um momento de carinho com um bicho de estimação; é uma modalidade terapêutica séria e cientificamente embasada, na qual animais atuam como co-terapeutas para melhorar o bem-estar físico, social, emocional e cognitivo de pacientes.