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    O Boticário: como o boliviano Miguel Krigsner usou uma batedeira caseira e fez um dos maiores grupos de cosméticos do Brasil

    origem e criação da O Boticário está ligada à história de vida de Miguel Krigsner, um boliviano que chegou ao Brasil ainda criança, estabelecendo-se com a família em Curitiba (PR). Filho de imigrantes judeus que escaparam da Segunda Guerra Mundial, ele cresceu em um lar marcado por superação, trabalho duro e respeito pelas relações humanas.

    Nos anos 1970, enquanto cursava Farmácia e Bioquímica na Universidade Federal do Paraná, Miguel decidiu que não queria seguir carreira em laboratórios ou na indústria farmacêutica. Sua vontade era empreender. Assim, em 1977, com o equivalente a menos de US$ 3 mil da época, abriu uma pequena farmácia de manipulação no centro da capital paranaense. Nascia, então, a criação da O Boticário.

    O nome da farmácia fazia alusão aos antigos boticários, profissionais que manipulavam medicamentos artesanalmente — e refletia bem a proposta inicial da empresa.

    De farmácia a marca de cosméticos: a virada estratégica de Miguel Krigsner

    O que começou com a manipulação de cremes dermatológicos logo ganhou outra proporção. Observando que a maioria de seus clientes eram mulheres e que muitas aguardavam na própria loja para retirar medicamentos manipulados, Miguel passou a preparar  cosméticos artesanais, como cremes faciais à base de colágeno e algas marinhas.

    O sucesso das fórmulas se espalhou pela cidade de Curitiba, e logo a receita com cosméticos superava a da farmácia tradicional. Esse foi o primeiro sinal de que o futuro da empresa estava na beleza — não apenas na saúde.

    Com visão de negócio e espírito ousado, Miguel passou a investir no desenvolvimento de fragrâncias e produtos de cuidados pessoais, ainda em uma fase onde o mercado de cosméticos nacional era limitado. A criação d’O Boticário, portanto, foi mais do que uma loja — foi uma resposta a um mercado carente de inovação.

    Os 60 mil frascos de Silvio Santos e o nascimento de um clássico da perfumaria

    Um dos momentos mais icônicos da trajetória de Miguel Krigsner, fundador d’O Boticário, aconteceu no final dos anos 1970, quando a marca ainda dava seus primeiros passos na área da perfumaria. Determinado a criar uma linha de perfumes autoral, Miguel soube por contatos do setor que o empresário e apresentadr Silvio Santos havia desistido de lançar sua própria marca de fragrâncias no Brasil.

    O motivo? O projeto não avançou, mas Silvio havia encomendado 60 mil frascos de vidro, em formato de ânfora, que estavam estocados em um galpão em São Paulo. Ao tomar conhecimento disso, Miguel viajou à capital paulista com a intenção de comprar apenas uma pequena parte do lote, já que não tinha dinheiro — nem necessidade — para adquirir tudo.

    Ao chegar ao local, foi informado que a negociação só seria feita “tudo ou nada”. Sem capital disponível e sequer um local para armazenar os potes, ele arriscou tudo: fechou a compra, mandou carregar os frascos e os levou para Curitiba. A confiança era baseada em pura intuição e urgência.

    Com os frascos em mãos, Miguel acionou sua equipe e pediu que a fragrância que ainda estava em desenvolvimento fosse finalizada imediatamente. Segundo ele, não havia mais tempo para testes. Era preciso lançar algo rapidamente para começar a vender e recuperar o investimento feito nos frascos.

    Assim nasceu o Acqua Fresca, um perfume com notas cítricas e aquáticas, que se tornou um verdadeiro fenômeno de vendas no Brasil — e permanece até hoje como uma das fragrâncias mais tradicionais da marca

    A criação d’O Boticário foi muito mais do que uma iniciativa comercial. Miguel uniu seus conhecimentos técnicos em farmácia com uma sensibilidade rara para atender os desejos do consumidor, principalmente as mulheres que frequentavam sua farmácia em busca de soluções dermatológicas.

    Ele começou a desenvolver cremes faciais com colágeno e algas marinhas, receitas próprias, aplicadas com rigor científico, mas com apelo estético e sensorial. O resultado foi imediato: o boca a boca fez os produtos se tornarem populares em Curitiba.

    Miguel afirma que o segredo sempre esteve no cuidado com as pessoas. “Aprendi com meu pai que empreender é saber lidar com gente. Tudo o que construímos é baseado nessa confiança”, declarou em entrevista ao portal Terra.

    Além disso, Krigsner atribui parte de sua visão empreendedora à história de superação da sua família, que atravessou guerras, imigração e recomeços. Essa resiliência está no DNA do Grupo Boticário, que hoje emprega milhares de brasileiros.

    A segunda loja e o nascimento da franquia

    O ponto de virada na trajetória d’O Boticário foi a abertura da segunda loja, em 1979, no Aeroporto Internacional Afonso Pena, em São José dos Pinhais, na Grande Curitiba. Essa localização estratégica fez com que os produtos fossem conhecidos por passageiros de todo o país.

    Funcionários de companhias aéreas passaram a levar os  cosméticos como presentes ou para revender em outras cidades. Com a demanda crescendo, Miguel Krigsner percebeu o potencial de expansão nacional. Assim, em 1980, mesmo quando o termo “franquia” ainda era pouco conhecido no Brasil, foi inaugurada a primeira loja franqueada d’O Boticário, em Brasília.

    Em poucos anos, o modelo se consolidou. Ao final dos anos 1980, já existiam 800 lojas espalhadas pelo país. Hoje, com mais de 3.600 unidades em 1.700 cidades brasileiras, O Boticário é reconhecida como a maior rede de franquias do Brasil, segundo a Associação Brasileira de Franchising (ABF).

    O Boticário hoje: um ecossistema de beleza multicanal

    Atualmente, O Boticário é parte de um grupo que reúne diversas marcas, como:

    • Eudora
    • quem disse, berenice?
    • The Beauty Box
    • Vult
    • Dr. Jones

    Esse portfólio oferece mais de 9 mil produtos, comercializados por lojas físicas, e-commerce e venda direta, num modelo multicanal que consolida a empresa como líder do setor de beleza no país.

    Com mais de R$ 8 bilhões de faturamento anual, o Grupo Boticário emprega cerca de 7 mil colaboradores diretos e mais de 22 mil franqueados e consultoras de beleza.

    Sustentabilidade e impacto social: beleza com propósito

    Desde 1990, o Grupo Boticário também se destaca por sua atuação social e ambiental. Criou a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, que hoje é referência em preservação de biomas como Mata Atlântica e Cerrado.

    A empresa mantém duas reservas naturais privadas, além de financiar dezenas de projetos ambientais em todo o Brasil. Em suas unidades fabris, investe em economia circular, redução de emissão de gases de efeito estufa e embalagens recicláveis.

    Em cidades como São José dos Pinhais (PR), Registro (SP), Camaçari e São Gonçalo dos Campos (BA), a companhia também investe em qualificação profissional, cultura e bem-estar comunitário. Para o fundador, a comunidade é a extensão da empresa, e o empreendedor deve cuidar do local onde atua.

    Valores familiares e resiliência: as raízes do grupo

    Miguel Krigsner afirma que o que aprendeu com seu pai — comerciante que escapou da guerra — foi essencial para o crescimento da marca. Valores como respeito, confiança e perseverança moldaram a cultura corporativa do Grupo Boticário.

    Em meio às crises econômicas da década de 1990, Miguel enfrentou dificuldades financeiras e chegou a convocar os fornecedores para explicar que precisava de prazo e confiança. Pagou cada um deles antes do prazo combinado. O gesto construiu uma relação de confiança que permanece até hoje na cadeia de produção.

    Esses episódios mostram como a trajetória d’O Boticário está alicerçada em relacionamentos sólidos, não apenas em estratégias comerciais.

    O papel da loja física em tempos de digitalização

    Apesar do avanço do e-commerce, Miguel acredita que a loja física continua sendo o coração da operação. Segundo ele, o contato com os produtos, a possibilidade de experimentar e o acolhimento no ponto de venda são insubstituíveis.

    Hoje, as lojas são mais do que espaços comerciais: são experiências sensoriais que conectam o consumidor à marca. Essa combinação entre o físico e o digital tem garantido a fidelidade de clientes e sustentado a expansão.

    A fórmula do sucesso: atenção ao detalhe e compromisso com o futuro

    O fundador d’O Boticário resume sua trajetória com uma lição importante: as oportunidades não surgem por acaso, mas como consequência da dedicação e atenção aos detalhes. Para ele, sorte é estar preparado para o inesperado.

    Miguel afirma que, se pudesse voltar no tempo, faria tudo novamente. Seu conselho para os novos empreendedores é claro: não existe atalho para o sucesso. É preciso aprender com os erros, crescer com o tempo e agir com propósito.

    De uma pequena farmácia ao maior grupo de beleza do Brasil

    A história d’O Boticário mostra que não é preciso muito dinheiro para construir um império — basta visão, coragem e compromisso. O que começou como uma pequena farmácia em Curitiba se tornou um dos maiores grupos de  cosméticos do Brasil, com impacto nacional e internacional.

    Hoje, o Grupo Boticário é sinônimo de beleza, ética, inovação e responsabilidade social, sendo inspiração para milhares de empreendedores que sonham transformar realidades a partir de ideias simples.

    E tudo isso nasceu com menos de 3 mil dólares, uma batedeira doméstica e o sonho de um jovem boliviano.

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