Cada um de nós tem e vive seu próprio tempo. Não podemos dizer – mas dizemos – que no nosso tempo as coisas eram melhores. Não temos bola de cristal e não sabemos como serão vistos, no futuro, os dias vividos hoje; porém, como diz o ditado, recordar é viver… E repassar nossas experiências para as gerações futuras é um exercício que não deveria ser abandonado. Isto se torna ainda mais importante quando vivemos numa cidade que se transforma a cada momento. Realmente, quando temos tempo para pensar, tentamos e, muitas vezes, não conseguimos quantificar quão incrível é nossa Sampa…

As lembranças do nosso cotidiano vão desaparecendo já que a velocidade das transformações parece ser muito rápida nesta “Paulicéia Desvairada”, como dizia Mário de Andrade. Já não faz tanto tempo, mas, hoje, ter os meus quarenta e poucos anos, já é muita idade… Coisas da cidade grande, como se dizia no tempo de nossos avós. Para os jovens de hoje, da geração vídeo game, disc-laser, palm-top, laptop ou outras coisas do tipo, o que vou contar será algo muito estranho, coisa de gente do século passado.
Vamos começar pela rua, nossa rua, minha rua em Pinheiros, com casas sem grades, sem condomínios, sem seguranças ou inseguranças. Esta era a minha rua, sem calçamento e sem luz. Que festa, o dia em que os caminhões Chevrolet cinzas da prefeitura chegaram e descarregaram as pedras que seriam usadas para o asfaltamento. A criançada, alvoroçada, já planejava que as tardes seriam preenchidas no acompanhamento das obras. Realmente, foi assim e passávamos as tardes em cima das máquinas, acompanhando aquele vai-e-vem e sonhando com o dia em que pudéssemos fazer nossos carrinhos de rolemã correr naquele asfalto novo. Carrinhos do quê? Sim, de rolemã! Eram tardes e tardes construindo aqueles carrinhos que corriam desesperadamente pela rua apostando corridas, destruindo os sapatos de tanto empurrá-los e deixando a vizinhança louca com aquele barulho de ferro raspando no asfalto.

Algum tempo depois que o asfalto chegou a prefeitura comprou umas máquinas enormes, que serviam para limpar as guias e sarjetas. Eram máquinas amarelas, com duas grandes escovas na frente e uma grande escova rotatória atrás. “Aquilo” vinha varrendo tudo e se desviando dos automóveis estacionados. Para nós, era uma farra ver esta operação.
Com a chegada da iluminação pública, não foi diferente, porém, desta vez, os caminhões eram os sempre bem cuidados Scania-Vabis da Light pintados de verde e laranja. Lá estavam os postes e as estruturas das novíssimas lâmpadas de mercúrio que hoje são consideradas pouco econômicas e estão sendo substituídas pelas de vapor de sódio. Daqui a pouco vou poder dizer que sou da geração da lâmpada de mercúrio…
Naquele tempo São Paulo tinha dois centros da cidade, ou seja, o centro velho, do lado da Praça da Sé e o centro novo, do lado do Teatro Municipal e para se chegar lá podíamos usar até o bonde. Bonde? Isso, sim, é coisa de velho, devem estar pensando os meninos de hoje que só veem bonde no museu. Quantos centros têm São Paulo hoje? É difícil dizer, já que a cidade cresceu tanto que gente dos bairros que nunca foi ao centro, hoje chamado de centro velho, pois cada bairro tem seu próprio centro, além do trânsito ser desanimador.
Os bairros, hoje, já são autossuficientes e só algumas atividades específicas permanecem no centro, que agora começa a renascer. Trânsito? Na época de comprar o uniforme escolar – naquele tempo, obrigatório – íamos a uma loja na Rua Martins Fontes, ao lado da antiga sede do Estadão e nada mais natural do que parar o carro na porta da loja e fazer as compras… Imagine parar o carro na Martins Fontes de hoje!

Quem não se lembra da Feira da Bondade e da feira Volta ao Mundo? Eram feiras beneficentes instaladas no pavilhão do Ibirapuera, onde podíamos estacionar o carro quase que na porta de entrada, sem filas, flanelinhas e neuróticos do trânsito. Dependendo do horário, até garoa ainda tinha…
Como tudo mudou em tão pouco tempo!… Parece que em São Paulo o tempo vem ao meu encontro e eu acabo envelhecendo mais rapidamente, já que a cidade se transforma e se renova a cada instante, muitas vezes sem deixar vestígios do passado, mesmo que muito recente.
Lembro-me das minhas idas até onde é hoje a Praça Panamericana. Era um matagal infernal! Nada muito além da avenida, que cortava o que hoje é a praça. Quando abriram o primeiro restaurante, lá fomos nós, numa noite fria, num restaurante vazio. Quem diria que aquilo foi para frente e que a praça é hoje um centro de serviços importante para os bairros Pinheiros e Boaçava.
Minha São Paulo não é a do tempo em que se vendia leite de cabra tirado na hora, porém, ainda me lembro da Kombi prateada da Vigor… Que delícia! Era uma Kombi repleta de produtos lácteos, que ia de casa em casa, vendendo queijos, iogurte e tudo o que a empresa de laticínios Vigor fabricava. Uma das atividades era trocar os vasilhames de iogurte que ficavam armazenados na parte mais baixa perua junto de um enorme queijo Faixa Azul do qual eu, morrendo de vergonha, sempre ganhava uma lasca do motorista vendedor.

Nas casas, sempre perto do relógio da luz, (não tínhamos as casas muradas como hoje) existia uma caixa metálica, rara de se ver hoje em dia. Era um conjunto único que tinha a caixa de correspondências, a caixa para o leite e a caixa para o pão. O leite era aquele triângulo de papel (avô das caixinhas de hoje) ou o tradicional litro de vidro; a bengala de pão vinha enrolada numa folha de papel e também era colocada na caixa.

Os padeiros, em sua maioria, usavam um tipo de carrinho inglês (hoje chamaríamos de van), cuja parte de trás era repleta dos mais variados tipos de pães. O padeiro sabia exatamente o que entregar em cada casa e, no final do mês, deixava anotado o valor a ser pago num pedaço do papel de embrulho. O incrível é que as pessoas deixavam o dinheiro na caixa ou perto dela e o padeiro pegava no dia seguinte. O dinheiro não sumia! Andar no carrinho do padeiro era um programa especial, que acontecia sempre no início das férias (para este programa éramos obrigados a acordar ainda mais cedo).
Mais interessante era a Lambretta (para os jovens, explico, Lambretta era um tipo de motocicleta) que os padeiros também usavam… Tinham na garupa uma enorme caixa de madeira, geralmente azul, com os pães. Passear de Lambretta seguia o mesmo esquema do carrinho inglês, porém, com mais emoção. O tempo foi passando e, um dia, para minha tristeza, o padeiro aparece todo orgulhoso com sua perua Volkswagen Variant novinha em folha. O tempo estava passando, o leite já era comprado no supermercado, o pão já tinha bromato e a caixa só servia para o correio…Que pena…
Eu era bebê, mas sei da história… A hoje conhecida Av. Diógenes Ribeiro de Lima sempre foi para nós, do bairro (Pinheiros), a Estrada da Boiada e não sei dizer se alguém hoje saberia me indicar onde fica isso. “Estrada do quê?”, vão dizer os apressados passantes de hoje, achando que eu vim de outro planeta. Na nossa casa perto da igreja da Cruz Torta e da Cetesb de hoje, passavam os bois e as vacas que vinham da Estrada da Boiada, em direção ao Rio Pinheiros. Havia na entrada da garagem um apoio para se colocar uma ripa de madeira que servia, justamente, para impedir a entrada dos animais no jardim (!). Um dia, meu pai se esqueceu de colocar a tal ripa e, pela manhã, lá estava o jardim todo pisoteado e cheio de vacas… Quantas crianças em São Paulo já viram uma vaca de perto? Elas devem achar que o leite nasce na caixinha; afinal, nós tomamos “leite de caixinha”, e não leite de vaca.
Falando em igreja, lembro-me que íamos sempre na igreja do largo de Pinheiros e sempre havia uma criança que chorava desesperadamente durante a missa que era rezada em latim. Sempre achei que alguém cutucava a criança de propósito… A missa não seria a mesma sem aquele choro… Outra igreja, já citada, era a Igreja da Cruz Torta, que hoje é conhecida como Mãe do Salvador. Antes da atual construção de concreto, tínhamos uma pequena e graciosa capela de madeira, cujo telhado tinha uma de suas vigas prolongada, onde foi colocada uma peça de madeira cruzando e formando uma cruz torta; daí o nome hoje esquecido. Nos idos da década de setenta, foi até colocado um carro ferroviário perto da capela onde eram ministrados cursos de catecismo e também do Mobral, para as empregadas domésticas do bairro. A capela deu lugar a um conjunto de lojas e o carro ferroviário sumiu. O progresso os engoliu.

Antes do rádio táxi, tinhamos o que hoje há em excesso na cidade, o ponto de taxi. Como me lembro daquele cheiro… os automóveis eram velhos Chevrolets pretos, muito grandes e com o estofamento sempre coberto por um plástico bem esticado e o taxímetro “Capelinha” que ia fazendo o característico barulho de relógio, já que eram movidos à corda. Era telefonar e chamar um carro. Os Chevrolets foram sendo substituídos pelas DKWs, fuscas e Aero-Willys. Hoje temos uma enormidade de diferentes automóveis. O serviço pode até ser melhor (será?), porém, o cheiro dos Chevrolets e o barulho dos taxímetros não podem ser mais sentidos.
A cidade crescia para todos os lados e lá fui eu estudar em Santo Amaro onde, perto da marginal, existia muito pouco, além do prédio do Banco do Brasil, do recém-aberto Carrefour e algumas casas e fábricas. A marginal enlouqueceu, pontes e pontes foram construídas, shopping centers foram construídos, prédios e mais prédios, as fábricas foram sendo expulsas, a marginal se congestionando, o tempo passando… Cuidado! Os radares de velocidade!… Medir velocidade com os congestionamentos diários? É isso que o tempo trouxe para aquela região anteriormente habitada por alemães em suas belas e, muitas vezes, típicas casas.

Já que falamos em transporte, vamos nos recordar do que está para acabar, ou seja, os troleibus. Não vou polemizar o fim destes belos ônibus, porém, apenas lembrar daqueles belíssimos modelos americanos (no meu tempo eram pintados de azul e marfim) que cruzavam nossa cidade no tempo da CMTC (Companhia Municipal de Transportes Coletivos). Na parte de trás, alguns exemplares traziam orgulhosos a inscrição “Troleibus Nacional fabricado pela CMTC” e eram uma marca numa São Paulo mais calma.

A São Paulo de hoje é quase impossível de ser descrita. O seu tamanho, descomunal, seus diversos bairros que são verdadeiras cidades, as diferentes raças que nela vivem e toda a diversidade possível de culturas e raças. Por outro lado, é isso que torna São Paulo fascinante e assustadora ao mesmo tempo. Uma cidade autofágica que engole suas próprias memórias numa velocidade que já não podemos definir como sendo do progresso.
Cada um de nós guardará dentro de si suas próprias lembranças desta cidade imensa e é desta colcha de retalhos que surgirão as histórias de nosso tempo, as histórias da nossa querida São Paulo.














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