¨E então...¨

    Um Brasileiro na Calçada da Fama

    Orlando Manfredi era um cidadão brasileiro como outro qualquer. Família humilde, começou a trabalhar e estudar muito cedo. Com muito esforço formou-se em Economia e foi aprovado num concurso para o Banco do Brasil. 

    Acontece que Landinho, como muitos o chamavam, era gago, motivo para sofrer bullying, por parte dos colegas de escola. Isso lhe afetava a autoestima e lhe causava um sentimento de inferioridade. Era tímido e homem de pouca conversa. Jamais dera uma entrevista, ou respondera a pesquisa nas ruas. Tinha ojeriza a programas de entrevistas na televisão e uma aversão mortal ao Domingão do Faustão. 

    Orlando era um apaixonado pelo idioma inglês, língua que estudou com afinco até expressar-se com fluência. E o mais curioso era não gaguejar quando falava no idioma de Shakespeare. 

    A vida de Landinho transcorreu nesse ramerrão até ele se aposentar. Em seguida ficou viúvo e a depressão começou a ameaçá-lo. 

    Resolveu então, viver uns tempos com a filha residente em Nova Iorque. Por sugestão do genro decidiu fazer um curso de arte dramática, pois dominava bem o inglês, além de que esse esforço poderia ajudá-lo a libertar -se da timidez. 

    Ele se destacou no curso. Revelou talento para a comunicação não-verbal. Sua expressão corporal e gestual dizia muito mais que suas palavras. 

    Antes mesmo de concluir o curso foi contratado por uma agência de publicidade para atuar em comerciais para a TV. Foi um sucesso. E para surpresa de todos, e dele próprio, recebeu um convite para um papel de coadjuvante num filme longa metragem para o cinema. 

    O papel oferecido era de um mudo, que se comunicava apenas por gestos. Sendo assim, Orlando topou o convite. 

    O filme foi lançado e estourou nas bilheterias. E, pasmem o nosso Landinho foi indicado para concorrer ao Oscar de melhor ator coadjuvante.  

    Na noite de entrega do grande prêmio da Academia, Orlando suava frio, enfiado num smoking apertadíssimo. E o mundo parecia desabar sobre sua cabeça quando anunciaram o vencedor: era ele. Subiu ao palco todo desajeitado, recebeu a estatueta com um quase inaudível thank you e rumou para casa. 

    A filha o colocou a par do que estava acontecendo: dezenas de telefonemas e e-mails felicitando e convidando para entrevistas. A Rede Globo já anunciava uma entrevista para o próximo domingo no Domingão do Faustão. Isso lhe provocou calafrios, e num acesso de fúria arremessou a estatueta contra a parede. Depois, mais calmo recolheu-se para dormir. 

    No dia seguinte, como não despertasse, entraram em seu quarto e o encontraram morto, vitimado por um infarto. Dar entrevista no Domingão do Faustão? Nunca! Morrer seria mais digno. 

    Por Gilberto Silos 

    Deixe um comentário

    Deixe um comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

    Artigos Recentes

    Categorias

    Artigos relacionados

    ¨E então...¨

    Populismo não gera produtividade

    O Brasil é um dos países com menor produtividade entre as economias...

    ¨E então...¨

    Os Três Poderes na Linha de Fogo

    Neste ano, os órgãos de imprensa não têm sido pródigos em manchetes otimistas. “O mar...

    ¨E então...¨

    Disfunção Comportamental: quando o comportamento deixa de ajudar e passa a prejudicar

    O comportamento humano é uma das formas mais importantes de adaptação ao...

    ¨E então...¨

    Raio-X: A Reforma Tributária e os impactos na gestão da acessibilidade

    A Reforma Tributária tem sido motivo de muita preocupação e discussão em...