Viver dentro do espectro autista é, muitas vezes, viver com a alma e os sentidos abertos em um mundo que prefere permanecer fechado. O autista, ao contrário do que muitos imaginam, não se tranca em uma “caixa” , ele vive constantemente com ela aberta, tentando compreender, absorver e sobreviver a uma sociedade que não foi construída para a sua forma de sentir, pensar e existir.
Ser autista é enfrentar todos os dias o ruído do mundo: as luzes intensas, os sons que invadem, as expressões faciais que dizem o contrário do que as palavras afirmam. É estar em alerta constante num espaço social onde a naturalidade das relações é uma regra não escrita, e quase impossível de decifrar. Mesmo assim, o autista tenta, busca, se abre.
Se submete ao Uso do Cordão de identificação “como um produto que precisa ser rotulado “ pra ser aceito e respeitado.
Enquanto isso, o mundo “neurotípico” , aquele que se orgulha de ser “aberto”, “inclusivo”, “sem preconceitos”,continua trancado dentro de suas próprias caixas. São caixas invisíveis, cheias de julgamentos sutis, olhares enviesados e discursos bonitos que não se traduzem em atitudes reais. Muitos dizem aceitar o diferente, mas aceitar não é o mesmo que compreender.
O preconceito contra o autista, assim como contra qualquer expressão da neurodiversidade, raramente é explícito. Ele mora na impaciência, na exclusão silenciosa, na piada disfarçada de leveza, no rótulo de “esquisito”, “difícil” ou “problemático”. É o preconceito de quem sorri para a diversidade apenas quando ela não desafia a sua zona de conforto.
Ser autista é viver num mundo que exige adaptação, mas que pouco se dispõe a se adaptar de volta. É ter que traduzir sentimentos, calibrar reações, esconder sobrecargas e sorrisos nervosos — tudo para caber num modelo social que não reconhece as diferenças como parte da condição humana.
E, ainda assim, o autista tenta. Ele se abre, se comunica, busca um espaço onde possa existir sem precisar se camuflar. O autista vive com a caixa aberta, vulnerável, disposto a se conectar com um mundo que o ensina desde cedo a se proteger.

Talvez o verdadeiro desafio da inclusão esteja justamente aí: em abrir a própria caixa. Em compreender que o diferente não é inferior, que o comportamento atípico não é desvio, e que a empatia vai muito além da tolerância.
Porque, no fim, o problema nunca foi o autista. O problema sempre foi o mundo que insiste em chamar de “normal” aquilo que é apenas comum.
Talvez um dia o mundo entenda que o autista não vive dentro de uma CAIXA .
Dra Pollyana Vieira
Neurocientista Especialista em Comportamento e Desenvolvimento Humano
SBNeC n° 16557/21
Psicanalista
Analista do Comportamento – ABA














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