Resido em São José dos Campos há pouco mais de cinquenta anos. Tive a oportunidade de acompanhar o vertiginoso crescimento desta cidade, então quase provinciana, na vibrante pequena metrópole dos dias atuais.
Muita coisa mudou para melhor, fato indiscutível. Mas a expansão econômica e urbana cobrou um preço amargo. Junto com a pujança vieram as mazelas na forma de violência, poluição, favelização e pobreza.
Hoje, aqui convivemos com uma realidade social praticamente inexistente décadas atrás, ou seja, a presença de moradores de rua e pedintes.
Há pouco tempo, caminhando pelas ruas do centro, um episódio com um morador de rua me marcou profundamente.
O olhar daquele homem andrajoso estendido na calçada atravessou-me a alma! Parecia implorar-me alguma coisa e eu não entendia o quê. A contragosto interrompi minha marcha e lhe dei um instante da minha atenção. Sua presença me sufocava. Ele insistindo em dizer-me algo e eu não ouvia sua súplica. Afinal por que eu estava ali com ele? Eu, trajando roupas limpas, bem barbeado. Eu, que me dava “ ao luxo” de pelo menos três refeições ao dia. Ele não dispunha de um teto, nem de uma cama decente para descansar seu corpo. Ele, que já nem era dono de sua própria vida, perambulando pelas ruas, invisível aos olhos alheios.
Incomodado com aquela situação, perguntei-lhe se queria alguma coisa. De sua voz não ouvi resposta alguma. Porém seus olhos irradiando um brilho estranho sobre os meus, respondeu-me com muda eloquência: “Quero apenas que saibas, em tua consciência, que eu existo. Nada mais¨.
Retirei-me do local me sentindo pequeno. Menor ainda do que quando cheguei.

Por Gilberto Silos














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