Nenhuma Corte sobrevive quando a rotina passa a ser a indecência
Não se trata mais de aparência, de ruído ou de maledicência — trata-se de fatos, e fatos têm uma crueza que dispensa adjetivos. Quando o dinheiro de um empresário irriga um projeto empresarial ligado à família de um ministro do Supremo, a obscenidade deixa de ser metafórica e passa a ser literal. O que se vê não é um erro de etiqueta institucional, mas uma fusão indecente entre toga e capital privado.
Isso é pornográfico porque revela, sem véu algum, aquilo que o Estado deveria esconder com rigor absoluto: a contaminação direta do juiz pelo interesse de quem tem dinheiro.
E quando esse mesmo ministro aceita atravessar o céu no jato particular desse empresário, o símbolo se completa. Não é apenas uma carona aérea; é a imagem perfeita da promiscuidade — o magistrado literalmente sustentado pelo poder econômico que deveria, em tese, manter à distância.
A Justiça não pode voar em asas alugadas. Um juiz não pode compartilhar a intimidade logística de quem circula no mundo dos negócios que, mais cedo ou mais tarde, sempre tangenciam o poder. Não há neutralidade possível a dez mil metros de altitude dentro de um jato que não lhe pertence.
Diante disso, a permanência no Supremo deixa de ser defensável. Não por histeria moral, mas por lógica institucional elementar. O cargo exige não apenas honestidade, mas isolamento; não apenas legalidade, mas vergonha do excesso.
Quando essa linha é cruzada, não há nota oficial que limpe o que já foi visto. Sair não é punição — é a última forma de respeito ao tribunal. Permanecer é transformar o escândalo em método e o método em rotina. E nenhuma Corte sobrevive quando a rotina passa a ser a indecência.
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![]() | Juliana Moreira Leite é jornalista especialista em cultura, escritora e curiosa. |















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