O ex-presidente José Sarney, além de uma longa vida dedicada à política, também fêz incursões na seara literária. Publicou vários livros nos gêneros de poesia, crônica, conto e romance. Essa militância na literatura lhe valeu uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.
Estou lendo uma de suas obras, “Crônicas do Brasil Contemporâneo – Volume VII. Em suas páginas ele aborda fatos e questões do cenário político brasileiro entre 2006 e 2007. Escreve, portanto sobre eventos de 20 anos atrás.
A princípio isso pode dar uma ideia de “café requentado”. Mas, o surpreendente é como o tempo passa e a vida política continua a mesma. Os mesmos erros e vícios persistem ao longo do tempo. Mudam os atores em cena, entretanto, as práticas e as ideias não se alteram. O país continua o mesmo. Isso fica evidente na crônica “Cheiro de Mugueta”, de 2006. Dela selecionamos e transcrevemos alguns parágrafos:
“O Brasil conseguiu no setor produtivo criar recursos humanos de excelente qualidade e fabricar produtos de alta tecnologia. É onde o país mostra sua única face de modernidade. Na área social, se houve progresso isolado, eles foram incapazes de diminuir a secular construção da mais brutal concentração de renda.”
“O que dizer de seu desenvolvimento político? Esse acumulou um retrocesso cuja manifestação mais vergonhosa é a onda de corrupção que invade seus atores. Destruíram-se os partidos, acabaram-se as ideias, sumiram os programas, a ética e a moral foram banidas do processo político. É o caos.”
“Acontece em todos os partidos e em todos os Poderes.”

“O país não se organiza por falta de recursos humanos na política, mas sem esses não se constrói um desenvolvimento social e econômico saudável.”
“Não vou invocar o lugar comum de Hamlet, de que “há algo podre no reino da Dinamarca”. Prefiro uma imagem amazônica de uma planta que tem um cheiro de que todos fogem: a mugueta. Onde ela vegeta, inunda a mata de cheiro de podridão.”
Alguma semelhança com o que estamos vivendo em 2026?
Por Gilberto Silos














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