Quem aprecia a leitura, reconhece nos bons escritores a capacidade de bem contextualizar suas narrativas e os protagonistas que lhes dão vida. O contexto histórico, social, político e cultural de um romance torna a história mais coerente, clara e lhe dá um sentido.
Isso pode ser notado no romance “O Leopardo, (IL Gatoppardo), de Giuseppe do Lampedusa. Os fatos nele contidos são contextualizados na Itália do século XIX, por volta de 1860. O tema principal é a decadência da aristocracia italiana e o perigo que corria diante da ameaça republicana representada por Giuseppe Garibaldi.
No decorrer da trama há um diálogo entre os dois principais personagens, o aristocrata Tancredi Falconieri e o Príncipe Salinas. Dessa conversa surge a célebre frase: “É preciso que as coisas mudem para que tudo permaneça como está.”

O” livro de Lampedusa foi publicado em 1958, mas a frase cabe bem no contexto do Brasil contemporâneo.
Não são poucos os nossos políticos a apregoar a necessidade de reformas nas áreas econômica, social política e judiciária.
Das tribunas podemos ouvir suas vozes pedindo urgência na discussão de temas capazes de gerar instrumentos eficientes na transformação das práticas e costumes políticos. Clamam e propõem leis a respeito. Mas, o que se observa na essência e nas entrelinhas da legislação é a ideia contraditória da mudança que possibilite a continuidade.
Há décadas o Brasil enfrenta problemas até agora não resolvidos. Não faltam instâncias para discuti-los e propor-lhes soluções.
Como tudo depende de discussão e aprovação pelo Congresso, lá se situa o grande gargalo. É uma instância de decisões representada por interesses difusos, cada qual com suas bancadas e lobbies.
Insistem tanto na urgência de “mudar a cara do País”, porém, no fundo interessa-lhes não mais que uma simples “maquiagem”. Ou seja, oferecem uma lei aqui, um subsídio ali, uma “bolsa qualquer coisa” acolá, e estamos conversados.
Mantém-se, assim, um faz de contas que sobrevive ao tempo.
Por Gilberto Silos.














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