¨E então...¨

    Maternidade na menopausa: entre o milagre da vida e os desafios da biologia

    Nos últimos anos, a maternidade após os 45 e até mesmo após os 50 anos deixou de ser um acontecimento raro e passou a fazer parte da realidade de muitas mulheres. Com o avanço das técnicas de reprodução assistida, especialmente a fertilização in vitro, mulheres na menopausa passaram a concretizar o desejo de gerar um filho — muitas vezes utilizando óvulos doados.
    A menopausa, definida pela interrupção definitiva da menstruação por 12 meses consecutivos, marca o fim natural da fertilidade ovariana. No entanto, o útero pode continuar apto a gestar, desde que haja preparo hormonal adequado. É nesse cenário que a ciência amplia possibilidades, mas também impõe reflexões importantes sobre riscos e responsabilidades.
    O que significa viver a maternidade na menopausa?
    Do ponto de vista emocional, muitas mulheres relatam viver essa fase com maior maturidade, estabilidade financeira e segurança afetiva. A experiência da maternidade costuma ser descrita como mais consciente e intencional.
    Por outro lado, o corpo já não responde como aos 25 ou 30 anos. A gestação após os 45 anos está associada a maior risco de complicações maternas, como hipertensão, diabetes gestacional, parto prematuro e maior probabilidade de cesariana. A recuperação também pode ser mais lenta, exigindo acompanhamento médico rigoroso.
    E quanto aos riscos para o bebê?
    É importante diferenciar duas situações:
    1.Quando a gestação ocorre com óvulos próprios em idade avançada
    2.Quando ocorre com óvulos doados de mulheres mais jovens
    Quando a gravidez acontece com óvulos próprios após os 40 anos, especialmente após os 45, aumenta significativamente o risco de alterações cromossômicas. A mais conhecida é a Síndrome de Down, que está relacionada à trissomia do cromossomo 21. O risco, que aos 25 anos é de cerca de 1 para 1.250, pode chegar a aproximadamente 1 para 30 aos 45 anos.
    Além das alterações cromossômicas, há maior chance de:
    •Abortamento espontâneo
    •Prematuridade
    •Baixo peso ao nascer
    Já em casos de óvulos doados por mulheres jovens, o risco genético relacionado à idade materna diminui consideravelmente, pois a qualidade do óvulo está ligada à idade da doadora, não da gestante.
    E quanto aos transtornos do neurodesenvolvimento?
    Estudos indicam que tanto a idade materna avançada quanto a idade paterna avançada podem estar associadas a um discreto aumento do risco de transtornos do neurodesenvolvimento, como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e algumas condições psiquiátricas.
    No entanto, é fundamental ressaltar: aumento de risco não significa causalidade direta. O desenvolvimento infantil é multifatorial — envolve genética, ambiente, fatores epigenéticos e condições gestacionais.
    Entre riscos e escolhas
    A maternidade na menopausa é uma escolha possível, mas que exige informação, planejamento e acompanhamento multidisciplinar. Mais do que uma questão biológica, trata-se de uma decisão que envolve saúde física, preparo emocional e rede de apoio.
    A ciência abriu portas. Cabe agora às mulheres, aos profissionais de saúde e à sociedade compreender que cada caso deve ser avaliado com responsabilidade, ética e acolhimento.
    Gerar uma vida sempre foi um ato de coragem. Na menopausa, essa coragem vem acompanhada de maturidade — e da necessidade de decisões conscientes.
    Dra Pollyana Vieira
    Neurocientista Especialista em Comportamento e Desenvolvimento Humano
    SBNeC n° 16557/21
    Psicanalista
    Analista do Comportamento – ABA

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