Desde 2019, já foram divulgados investimentos de R$ 82 bilhões na região; Extrema, Pouso Alegre e Camanducaia são os destaques
Referência nacional quando o assunto é produção de café ou laticínios, o Sul de Minas também se destaca cada vez mais na indústria. Nos últimos meses, grandes empresas como Heineken, Grupo Boticário, Midea, Cimed e Althaia anunciaram investimentos em novas plantas. Desde 2019, já foram divulgados investimentos de R$ 82 bilhões na região.
“O Sul de Minas é a região que mais tem recebido investimentos. Quando se avalia a carteira de projetos da Invest Minas, que tem mais de mil projetos, 27% deles estão no Sul de Minas. Já foi anunciada a criação de 55 mil novos empregos na região”, afirma Leandro Andrade, diretor da Invest Minas, a agência governamental responsável pela atração de negócios para o estado.
Só o Grupo Boticário está investindo R$ 1,8 bilhão numa fábrica em Pouso Alegre, com a previsão de início das operações em 2028. O projeto estima a geração de 800 empregos diretos – com o potencial de atrair mais de 4.000 empregos indiretos na região. Esta poderá ser a maior fábrica do ramo de beleza do mundo, de acordo com a empresa.
Os números podem ser ainda melhores após 2021, já que os investimentos do setor de logística crescem de maneira exponencial, especialmente em Extrema, cidade de pouco mais de 59 mil habitantes que concentra o maior PIB da região. A população da cidade mais que dobrou em 15 anos e tende a continuar crescendo – até porque a demanda por mão de obra na cidade não pára de crescer.
“O e-commerce foi um divisor de águas. No momento em que o mundo parou, melhoramos as políticas de incentivo para as empresas de e-commerce. O volume de vendas pela internet aumentou muito e o Sul de Minas se beneficiou disso”, diz Andrade.

Para Fernando Batista Pereira, economista e professor da Universidade Federal de Alfenas (Unifal-MG), a proximidade com o estado mais rico do país é um diferencial. “É muito mais caro instalar um negócio em São Paulo. Estar no Sul de Minas é estratégico, pois é possível ter custos menores e ainda manter a proximidade”, analisa.
Na avaliação do especialista, este movimento de atração de grandes empresas já está consolidado na região e tem gerado um efeito chamado de “fatores aglomerativos”. “O Sul de Minas já se tornou um polo com infraestrutura, mão de obra qualificada e disponibilidade de galpões e terrenos. Isso faz com que outras empresas também queiram instalar seus negócios por lá, pois já é uma região bem estabelecida”, diz.
Pouso Alegre se destaca na região
Detentora do segundo maior PIB da região, atrás apenas de Extrema, Pouso Alegre é uma das cidades que lideram o processo de industrialização no Sul de Minas. Um dos projetos em andamento é um grande condomínio de logística, com investimentos que podem chegar a R$ 1 bilhão. A primeira etapa do empreendimento, estruturado pela Átria Desenvolvimento Imobiliário em parceria com Monte Bravo Investimentos, Directpar Desenvolvimento Econômico e TM2 Arquitetura, está em fase de licenciamento ambiental.
“O processo não é recente, desde a década de 1970 temos recebido grandes empresas, como a fábrica da Alpargatas, fechada em 2018. Porém é inegável que a duplicação da Fernão Dias acelerou esse processo e potencializou a industrialização. Hoje, temos grandes negócios interessados em se instalar na cidade”, comemora.
Como consequência desse processo, Pouso Alegre também se destacado na geração de empregos. Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o saldo de empregos no Sul de Minas até agosto de 2025 é positivo. No acumulado do ano, a região registra a criação de 21.484 novas vagas de trabalho com carteira assinada – com Pouso Alegre (+2.508) e Extrema (+1.549) na liderança.
Junto do dinheiro e emprego, é natural que a cidade também passe por um rápido processo de expansão. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população de Pouso Alegre era de 152.217 habitantes em 2022. Já a estimativa mais recente do órgão para 1º de julho de 2025 é de 162.133 habitantes. São quase 10 mil novos moradores em um período de apenas três anos.
Como contraponto, o economista Fernando Batista Pereira lembra que, com o progresso, chegam também os problemas. “Temos um histórico de urbanização marcado pela rapidez e falta de planejamento. Pouso Alegre, por exemplo, já sofre com alagamentos e aumento no custo de vida por causa dessa expansão”, diz.
Investimentos em tecnologia
O setor logístico tem sido fundamental para a aceleração da economia do Sul de Minas, mas não é o único. A região também tem se revelado valiosa no setor de tecnologia. Um exemplo de investimento anunciado recentemente foi o financiamento de R$ 294,1 milhões captado pelo Grupo Multi S.A. (antigo Multilaser), junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) via programa Mais Inovação, para apoiar o plano estratégico de inovação e indústria 4.0 do grupo. A empresa de produtos tecnológicos tem um complexo industrial em Extrema.
Batista Pereira aponta que é preciso ir além da superficialidade e não enxergar a região apenas como um local que concentra muitos galpões ou centros de distribuição. “Santa Rita do Sapucaí, Extrema e Pouso Alegre, hoje, são as três cidades da região que mais concentram empregos relacionados à alta tecnologia”, argumenta o economista.

Extrema saltou de 481 empregos relacionados à alta tecnologia, em 2010, para 3.554 postos de trabalho em 2021, um crescimento de 638,88% no período. Já Pouso Alegre saltou de 2.418 empregos do mesmo tipo para 3.815 postos durante o período, um aumento de 57,78%. O balanço foi feito pela Unifal-MG em parceria com a Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e se baseou em dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais). O estudo avaliou diversos aspectos econômicos do Sul de Minas e será publicado em breve na revista Nova Economia, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
E os municípios do Sul de Minas têm trabalhado para ganhar ainda mais visibilidade das empresas de tecnologia. Sede da primeira escola especializada em telecomunicações da América Latina – Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel) -, Santa Rita do Sapucaí é um município que faz questão de se divulgar como uma cidade que abriga várias empresas do setor de TI, especialmente ligadas à segurança eletrônica.
Na Futurecom, uma grande feira de negócios realizada em São Paulo para reunir empresas de telecomunicações e conectividade, Santa Rita do Sapucaí era o único município do país com estande, montado em parceria com oito empresas e o Sebrae.
Ele lembrou que este é um dos seis municípios que integram o recém-lançado Sistema Regional de Inovação, que conta ainda com Lavras, Varginha, Itajubá, Pouso Alegre e Poços de Caldas. A ideia é formar um único ecossistema regional para promover crescimento, cooperação mútua e desenvolvimento conjunto na região até 2040. Os municípios deixariam de ser concorrentes na luta por atração de investimentos, para passarem a unir forças para um crescimento econômico regional.
“Eu não sou só Santa Rita, eu não sou só Pouso Alegre ou Varginha. Nós todos somos Sul de Minas. Este é o primeiro sistema regional de inovação do Brasil, apoiado pelo Sebrae e nós iniciamos os trabalhos há 60 dias”, adianta o secretário.
E não só as grandes indústrias que estão de olho no Sul de Minas. A marca de chocolates Cacau do Céu, sediada em Ilhéus, escolheu Santa Rita do Sapucaí para abrigar uma fábrica. Um dos sócios já tinha negócios no Sul de Minas e viu ali o lugar mais propício para a expansão do negócio para o Sudeste.
“Nosso chocolate estava muito restrito à Bahia, quem visitava Ilhéus sempre queria saber onde encontrar nossos produtos, então entendemos que, para crescer, precisaríamos estar mais próximos dos grandes centros consumidores, como São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Estar em Minas nos dá essa conexão logística e comercial”, conta Marcela Tavares, sócia-proprietária da marca.
“Escolhemos Santa Rita do Sapucaí por ser uma cidade bastante peculiar. É uma cidade pequena mas fortemente industrializada, encontramos aqui um ambiente inovador, com vocação para o empreendedorismo e que nos recebeu de braços abertos, completa”.

Mão de obra qualificada
Com tantos investimentos anunciados, é natural se questionar: há mão de obra qualificada suficiente na região para atender à demanda das indústrias? Leandro Andrade, da Invest Minas, garante que sim, ainda há mão de obra suficiente na região e, por enquanto, não é necessário atrair trabalhadores de outros lugares.
Segundo ele, há um investimento na formação técnica. “Um dos programas mais utilizados pela indústria é o Trilhas do Futuro, em que o governo injeta capital para a formação de mão de obra”, explica.
Vale lembrar que o Sul de Minas conta com algumas destacadas universidades públicas e centros tecnológicos: a Universidade Federal de Alfenas (Unifal), a Universidade Federal de Lavras (Ufla), a Universidade Federal de Itajubá (Unifei), o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas – (IFSULDEMINAS) em Pouso Alegre e duas unidades do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG), em Varginha e Nepomuceno.
A chegada de grandes empresas também fomenta a criação ou o incremento dos pequenos negócios. De acordo com Ivan Figueiredo, analista do Sebrae Minas, a industrialização gera grande demanda por fornecedores, principalmente de peças, insumos, uniformes e serviços, como vigilância e transporte. “Não são apenas empregos diretos que surgem, mas também diversas atividades incentivadas pelo crescimento econômico da cidade”, garante.
Cabe também ao município incentivar a desburocratização para incentivar ainda mais esse movimento. Poços de Caldas, por exemplo, iniciou em fevereiro o Redesim+Livre, que permite a abertura de uma empresa em poucos minutos. “O resultado foi que, entre março e julho deste ano, a abertura de novos negócios cresceu 20%. Isso também atrai empresas de fora que estão em busca de facilitação.”
Números do Sebrae apontam que 35.652 micro e pequenas empresas abriram no Sul de Minas até agosto deste ano. Considerando as 21.405 que fecharam, a região teve um saldo positivo de 14.247 novos negócios em oito meses.
O Sebrae também aponta quais os tipos de negócios lideraram a abertura de empresas até agosto deste ano: comércio varejista de artigos do vestuário e acessórios (1.524), obras de alvenaria (1.461), promoção de vendas (1.319), cabeleireiros, manicure e pedicure (1.175) e preparação de documentos e serviços especializados de apoio administrativo (1.168).
Ivan garante que o mercado não está saturado e ainda tem espaço para quem deseja empreender no Sul de Minas. “Porém, é preciso estar preparado para entender as demandas, entregar qualidade e ter afinidade com o ramo de atuação. Ter muito planejamento e um olhar voltado para o digital também são pontos importantes”, aconselha.














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