Confesso.
Quando vi a previsão do tempo anunciando chuva, raios e trovoadas, comecei a desconfiar.
Logo hoje?
Justamente contra a Noruega?
Thor, o Deus do Trovão, parecia ter comprado ingresso para a partida.
Fiquei imaginando Odin sentado na arquibancada do MetLife Stadium ao lado dos velhos guerreiros vikings.
A torcida remava.
Os tambores brasileiros respondiam.
Era como se dois mundos separados por mil anos resolvessem disputar uma Copa do Mundo.
De um lado, os descendentes dos navegadores do Norte.
Do outro, os inventores da pelada.
A Noruega começou melhor.
Remando.
Empurrando.
Chegou até ao gol.
Anulado.
O aviso estava dado.
Os vikings continuavam acreditando naquele velho tabu.
Afinal… Nunca perderam para o Brasil.
O susto acordou a Seleção.
A bateria brasileira finalmente encontrou o compasso.
A bola passou a correr pelo chão.
O samba começou.
E quando Matheus Cunha sofreu o pênalti, confirmado pelo VAR, confesso que sorri.
Naquele instante tive certeza:
*Deus é brasileiro.*
Mas Deus também aprecia boas histórias.
Bruno Guimarães caminhou para a cobrança.
Bateu.
Nyland defendeu.
Foi uma defesa daquelas que mudam campeonatos.
O Brasil dominava.
Criava.
Trocava passes.
Martelava.
E como diria Parreira: Só faltava um detalhe.
O gol.
Enquanto isso, a Noruega remava de vez em quando.
Duas chegadas.
Duas ameaças.
Mas nossa bateria seguia tocando.
Só não recebeu nota dez porque faltou afinar justamente o instrumento principal.
A pontaria.
Veio o segundo tempo.
O xerife Carlo Ancelotti resolveu que era hora do velho bang bang à italiana.
Chamou Endrick.
Depois Neymar.
Depois Danilo.
Era o velho pistoleiro colocando todas as balas sobre a mesa.
O Brasil melhorou.
Mas toda bola terminava nas mãos de Nyland.
Naquela altura já não era goleiro.
Era uma muralha viking.
E goleiro quando cresce em Copa costuma virar personagem de tragédia brasileira.
A Noruega percebeu.
Gostou do jogo.
Começou a trocar passes.
A posse de bola deixou de ser brasileira.
Os vikings descobriram que também sabiam sambar.
Até que aconteceu.
Num cruzamento.
Uma bola alta.
Como manda o velho manual do futebol nórdico.
Haaland subiu. Mais alto que todo mundo.
Cabeceou.
Gol.
De novo eles.
De novo a Noruega.
De novo o fantasma de 1998.
O estádio inteiro pareceu ouvir o velho grito dos drácares chegando à costa.
O Brasil ainda tentou reagir.
Mas quem desperdiça oportunidades costuma desafiar o futebol.
E o futebol não perdoa.
Thor ergueu seu martelo mais uma vez.
Haaland recebeu fora da área.
Olhou. Bateu.
A bola encontrou o caminho do gol.
O segundo golpe.
Seco.
Cruel.
Irremediável.
Quem não faz… Toma.
Nos acréscimos ainda houve tempo para Neymar diminuir de pênalti.
Um gol de honra.
Daqueles que servem apenas para registrar que houve resistência.
Porque a história daquela noite já estava escrita.
Noruega 2 X Brasil 1.
O tabu continua.
Nunca. Nunca vencemos a Noruega.
Talvez exista alguma velha maldição viking.
Talvez Hy-Brasil, a ilha perdida das antigas lendas nórdicas, realmente exista e tenha resolvido cobrar a conta. Ou talvez seja apenas futebol.
Esse sujeito debochado que nunca leu os livros de História.
No fim das contas, o bacalhau continua sem cabeça. Mas agora também continua invicto.
E Haaland entra para aquela galeria que nenhum brasileiro gostaria de ampliar.
Paolo Rossi.
Caniggia.
Zidane.
Henry.
Klose.
Modrić.
De Bruyne.
E agora…
*Erling Haaland.* O Viking.
Adeus, Copa do Mundo.
Seguimos esperando o dia em que alguém finalmente descubra o caminho para vencer a Noruega.
Porque, até hoje, os navegadores do Norte continuam encontrando o caminho do gol.
E nós…
…o caminho de casa.
*Eduardo Pandeló*
Jornalista














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