Noruega significa, em sua origem, algo como “o caminho para o Norte”.
Pois bem.
No domingo, o Brasil precisa transformar esse caminho num atalho para as quartas de final.
O problema é que, até hoje, nunca vencemos os vikings. Nunca.
É um desses tabus esquisitos do futebol, daqueles que parecem inventados por um roteirista nórdico tomando sopa de bacalhau numa noite gelada em Oslo.
Aliás, já começo a desconfiar.
Será que os vikings não descobriram o Brasil antes de Cabral?
Será que passaram por aqui, perderam uma pelada na praia, ficaram irritados e juraram vingança eterna contra a Seleção?
Não sei.
Mas está na hora de desmistificar isso na bola.
A Noruega vai muito além do bacalhau.
Até porque bacalhau mesmo é quase uma entidade metafísica.
Todo mundo come.
Todo mundo fala.
Mas a cabeça do bacalhau ninguém nunca viu.

No futebol acontece igual.
A Noruega aparece pouco, mas quando aparece contra o Brasil vira assombração.
Foi assim com Tore André Flo, o famoso “Flonaldo”, em 1998.
O grandalhão infernizou nossa defesa, marcou, sofreu pênalti e entrou para aquela galeria incômoda dos carrascos improváveis da camisa amarela.
Agora, o fantasma atende por outro nome.
Erling Haaland.
Se na ficção do filme “Erik, o Viking” a ilha mítica de Hy-Brasil afundava depois de uma profecia , nossa preocupação é mais concreta: um bombardeio de bolas aéreas na área brasileira.
Haaland não cabe numa marcação comum.
Ele parece ter sido fabricado numa oficina viking para disputar bola pelo alto, empurrar zagueiro e estragar domingo de brasileiro.
E lá estará Gabriel Magalhães, acostumado a encarar o gigante nos duelos entre Arsenal e Manchester City.
Já se enfrentaram várias vezes.
Haaland leva vantagem no retrospecto.
Mas Copa do Mundo não é campeonato inglês.
Copa tem outro cheiro.
Outro peso.
Outro drama.
E o Brasil precisa jogar com inteligência.
Se os noruegueses vierem de barco viking, remando na arquibancada, que venham.
Nós esquentamos os pandeiros. Iluminamos os terreiros.
E respondemos no samba.
Mas sem ingenuidade.
Chegou a hora do futebol brasileiro à italiana.
Sim, meus amigos.
Bang bang à italiana.
Carlo Ancelotti precisa entrar neste duelo como aqueles velhos pistoleiros dos filmes que passavam na televisão.
Olhar fechado.
Charuto imaginário.
Poucas palavras.
E uma bala certeira para acertar um dólar furado.
A Seleção não pode cair na conversa da tradição.
Nem aceitar o jogo físico dos vikings como se fosse destino.
O caminho está nas pontas. No drible.
No um contra um.
Na velocidade.
Naquilo que sempre fez o futebol brasileiro parecer uma desobediência civil contra a geometria.
Vini Jr. precisa atacar espaço.
Neymar precisa pensar o jogo.
E se eles dizem que têm um “Neymar norueguês”, ótimo.
Nós temos o original.
Mesmo quando criticado.
Mesmo quando contestado.
Mesmo quando o corpo já não obedece como antes.
Neymar ainda carrega aquela ameaça que nenhum esquema tático sabe medir .
A Noruega não respeita a história do futebol brasileiro.
E faz bem.
Ninguém entra em campo obrigado a reverenciar museu.
Mas o Brasil também não pode se comportar como peça de exposição.
Precisa jogar.
Precisa competir.
Precisa morder.
Precisa lembrar que camisa amarela não é souvenir.
É responsabilidade.
No MetLife Stadium, domingo, às 17h, não estará em jogo apenas uma vaga nas quartas.
Estará em jogo um tabu.
Uma lenda.
Um velho incômodo chamado Noruega.
Que venham os vikings.
Que venha Haaland.
Que venha o bacalhau sem cabeça.
Que venham os remadores das arquibancadas.
O Brasil já sobreviveu a Maracanã, Mineirão, Paolo Rossi, Flonaldo e até às próprias convulsões internas.
Agora precisa sobreviver ao caminho para o Norte.
E, se possível, voltar de lá sambando.
Eduardo Pandeló é Especialista em Inteligência Artificial para Negócios | MBA em Defesa e Segurança Pública | Jornalista e Comunicólogo – Trajetória consolidada em Jornalismo, Relações Governamentais, Assessoria de Imprensa, Marketing e Publicidade, com atuação em empresas de telecomunicações, tecnologia, rádio, TV, sites e portais de notícias, revista impressa, mídia legislativa e organizações militares.














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