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    Dra. Polly Vieira: O Cérebro que Foge Também Adoece

    Vivemos em uma sociedade que nos ensina, desde cedo, a buscar aprovação. Somos elogiados quando correspondemos às expectativas, criticados quando nos desviamos do que é considerado aceitável. Aos poucos, muitas pessoas passam a acreditar que seu valor depende do olhar do outro. O problema é que o cérebro não diferencia uma ameaça física de uma ameaça social: para ele, ser rejeitado, criticado ou excluído pode ser interpretado como um risco real.

    A neurociência tem demonstrado que fugir dos enfrentamentos e viver constantemente em busca de aprovação não protege a saúde mental. Pelo contrário, fortalece circuitos cerebrais associados ao medo, à ansiedade e à autossabotagem.

    Quando evitamos uma conversa difícil, adiamos uma decisão importante ou deixamos de defender nossos valores para agradar alguém, experimentamos um alívio imediato. Esse alívio, porém, é enganoso. O cérebro registra que evitar o desconforto “funcionou” e tende a repetir esse comportamento. Esse processo é conhecido como reforço negativo: a fuga reduz momentaneamente a ansiedade, mas fortalece o ciclo de evitação.

    Ao longo do tempo, esse padrão modifica a forma como o cérebro responde às situações desafiadoras. Estruturas como a amígdala cerebral, responsável por detectar ameaças, tornam-se mais reativas, enquanto regiões do córtex pré-frontal, essenciais para o planejamento, a tomada de decisões e o controle emocional, podem perder eficiência quando permanecemos presos em estados crônicos de medo e insegurança.

    Outro aspecto importante é a influência da opinião alheia sobre nossa identidade. Estudos mostram que a aceitação social ativa os circuitos de recompensa do cérebro, envolvendo neurotransmissores como a dopamina. Receber elogios, curtidas ou reconhecimento gera prazer. No entanto, quando passamos a depender exclusivamente dessa validação externa, nosso bem-estar deixa de ser guiado por nossos valores e passa a oscilar conforme a aprovação das pessoas ao nosso redor.

    É nesse momento que nasce a autossabotagem.

    A autossabotagem raramente aparece como preguiça ou falta de capacidade. Ela costuma vestir roupas muito mais sofisticadas: perfeccionismo, procrastinação, medo de errar, dificuldade em dizer “não”, necessidade constante de agradar e incapacidade de assumir riscos. Na prática, a pessoa deixa de viver sua própria história para interpretar o personagem que acredita ser esperado pelos outros.

    Do ponto de vista neurobiológico, isso representa um enorme gasto de energia. O cérebro precisa sustentar uma identidade que não corresponde à essência do indivíduo, gerando conflitos internos, estresse contínuo e maior vulnerabilidade a transtornos como ansiedade, depressão e esgotamento emocional.

    Existe ainda um fenômeno conhecido como neuroplasticidade, a extraordinária capacidade do cérebro de se reorganizar ao longo da vida. Isso significa que nenhum padrão emocional é definitivo. Quanto mais enfrentamos nossos medos de forma consciente e gradual, mais fortalecemos conexões neurais relacionadas à coragem, à autorregulação emocional e à confiança.

    Enfrentar não significa agir sem medo. Significa ensinar ao cérebro que somos capazes de permanecer diante do desconforto sem sermos destruídos por ele. A cada enfrentamento saudável, reduzimos a sensibilidade dos circuitos do medo e fortalecemos áreas cerebrais responsáveis pela tomada de decisões conscientes.

    A verdadeira liberdade emocional começa quando entendemos que nossa identidade não pode ser construída sobre opiniões que mudam diariamente. A aprovação dos outros é variável. Os valores pessoais, quando bem consolidados, tornam-se uma bússola muito mais estável.

    O cérebro humano foi projetado para aprender. E uma das aprendizagens mais transformadoras é descobrir que pertencimento não exige abandonar quem somos.

    Quando escolhemos viver de acordo com nossa essência, em vez de nos moldarmos continuamente às expectativas externas, deixamos de alimentar os circuitos da autossabotagem e começamos a fortalecer aqueles que sustentam autonomia, equilíbrio emocional e autenticidade.

    Talvez o maior enfrentamento da vida não seja convencer o mundo de quem somos. Talvez seja, simplesmente, ter coragem de sermos nós mesmos.

    Dra. Polly Vieira Lemos
    Neurocientista | Neuropsicóloga | Mestre em Análise do Comportamento Aplicada (ABA) | Especialista em Comportamento e Desenvolvimento Humano | Psicanalista Social

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