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    Dra. Polly Vieira Lemos: O Paradoxo da Alta Capacidade Cognitiva nas Mulheres Neurodivergentes:

    A crescente produção científica sobre neurodivergência feminina tem demonstrado que mulheres com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) e outras condições do neurodesenvolvimento frequentemente apresentam elevado potencial intelectual coexistindo com dificuldades significativas de progressão acadêmica, profissional e social. Essa aparente contradição não decorre de limitações cognitivas, mas da interação entre fatores neurobiológicos, psicológicos, ambientais e socioculturais que comprometem a expressão plena de suas capacidades.

    Sob a perspectiva da neurociência cognitiva, inteligência e desempenho funcional representam construtos distintos. Embora muitas mulheres neurodivergentes apresentem elevado raciocínio abstrato, criatividade, pensamento divergente, memória de longo prazo, reconhecimento de padrões complexos e elevada capacidade de aprendizagem autodidata, essas competências coexistem, frequentemente, com prejuízos nas funções executivas, especialmente no planejamento, organização, memória operacional, monitoramento comportamental, flexibilidade cognitiva, iniciação de tarefas e controle inibitório. Esses processos dependem principalmente da integridade funcional dos circuitos frontoestriatais e das conexões entre o córtex pré-frontal, o sistema límbico e outras redes neurais responsáveis pela autorregulação.

    Outro aspecto central refere-se ao fenômeno da camuflagem social (social camouflaging), amplamente descrito na literatura contemporânea sobre TEA feminino. Mulheres neurodivergentes tendem a desenvolver estratégias sofisticadas de compensação comportamental para minimizar manifestações percebidas como socialmente inadequadas. Essas estratégias incluem imitação de expressões faciais, ensaio prévio de conversas, observação sistemática de padrões sociais, supressão de comportamentos autorregulatórios (stimming) e monitoramento constante da própria comunicação verbal e não verbal.

    Embora a camuflagem favoreça maior aceitação social em determinados contextos, seu custo neuropsicológico é elevado. Estudos demonstram associação consistente entre altos níveis de mascaramento e aumento da ansiedade, depressão, exaustão cognitiva, burnout autístico, isolamento social, perda da identidade, baixa autoestima e maior risco de ideação suicida. Dessa forma, recursos cognitivos que poderiam ser direcionados à aprendizagem, inovação e desenvolvimento profissional permanecem continuamente mobilizados para processos de adaptação social.

    No TDAH feminino observa-se fenômeno semelhante. Em vez da hiperatividade motora classicamente descrita em meninos, muitas mulheres apresentam predominantemente desatenção, hiperatividade cognitiva, intensa ruminação, desorganização interna e elevada labilidade emocional. Como consequência, apesar da elevada capacidade intelectual, enfrentam dificuldades persistentes na gestão do tempo, priorização de tarefas, manutenção da atenção sustentada e conclusão de projetos de longo prazo. Essa discrepância frequentemente resulta em desempenho inferior ao potencial intelectual estimado.

    Aspectos socioculturais também exercem papel determinante. Historicamente, os modelos diagnósticos do TEA e do TDAH foram construídos a partir de amostras predominantemente masculinas, limitando a sensibilidade dos critérios para identificar apresentações femininas. Em decorrência disso, inúmeras mulheres recebem diagnóstico apenas na vida adulta, após anos de sofrimento psicológico e múltiplos diagnósticos prévios, incluindo transtornos de ansiedade, depressão, transtornos alimentares, transtorno obsessivo-compulsivo e transtornos de personalidade.

    A ausência de identificação precoce favorece a internalização de crenças negativas relacionadas à competência pessoal. Muitas mulheres crescem sendo rotuladas como preguiçosas, desorganizadas, excessivamente sensíveis ou emocionalmente instáveis, desenvolvendo intenso perfeccionismo, medo do fracasso e síndrome do impostor. Esses fatores comprometem significativamente a autoeficácia, conceito descrito por Albert Bandura como um dos principais determinantes da motivação e do desempenho humano.

    Sob a ótica neurobiológica, a exposição prolongada ao estresse crônico promove ativação persistente do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, aumentando a liberação de cortisol e interferindo diretamente na plasticidade sináptica, na memória de trabalho, na atenção e nas funções executivas. Consequentemente, o organismo passa a priorizar mecanismos de sobrevivência em detrimento de processos cognitivos relacionados à criatividade, inovação e aprendizagem complexa.

    Adicionalmente, estudos em neuroimagem funcional demonstram diferenças na conectividade entre a Rede de Modo Padrão (Default Mode Network), a Rede de Saliência (Salience Network) e a Rede Executiva Central (Central Executive Network), sistemas envolvidos na alternância entre processos internos, atenção seletiva e controle executivo. Alterações na integração dessas redes podem contribuir para dificuldades na regulação emocional, na mudança de foco atencional e na adaptação comportamental, sem implicar redução da capacidade intelectual.

    Diante desse cenário, torna-se evidente que a baixa progressão observada em muitas mulheres neurodivergentes não representa deficiência intelectual, mas uma consequência da sobrecarga adaptativa, do diagnóstico tardio, das demandas sociais incompatíveis com seu perfil neurocognitivo e da escassez de intervenções específicas. Ambientes inclusivos, adaptações ocupacionais, psicoeducação, treinamento de funções executivas, intervenções voltadas à regulação emocional e o reconhecimento das particularidades do fenótipo feminino constituem estratégias fundamentais para que essas mulheres possam expressar integralmente seu potencial.

    Assim, compreender a neurodivergência feminina exige uma mudança paradigmática: abandonar modelos centrados exclusivamente no déficit e adotar uma perspectiva biopsicossocial que reconheça tanto as vulnerabilidades quanto as potencialidades dessas mulheres. O desenvolvimento humano não depende apenas da inteligência, mas da interação entre capacidades cognitivas, saúde mental, suporte ambiental e oportunidades que permitam transformar potencial em realização.

     

    Dra. Polly Vieira Lemos

    Neurocientista | Neuropsicóloga | Mestre em Análise do Comportamento Aplicada (ABA) | Especialista em Comportamento e Desenvolvimento Humano | Psicanalista Social

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