Por Lenina Vernucci da Silva doutoranda da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP
O vídeo de Felca sobre influenciadores mirins chama atenção para a realidade que já vem sendo denunciada há tempos: a formação de uma geração em frente às telas de celulares. Digo celulares por não ver o mesmo problema com o tempo de televisão, ainda que muitos especialistas apontem que qualquer tela é problemática, já temos mais de uma geração na frente da TV.
Dentro das leituras que tenho realizado para minha pesquisa sobre o tema, não vejo esse comparativo para estabelecer que ambos, celular e TV, apresentam o mesmo perigo se consumidos pelas crianças. Ainda que a infância não deve ser passada sem a devida socialização e brincadeiras que envolvem explorar o ambiente e o próprio corpo, testando limites e aprendendo a coordenar, fundamental para o desenvolvimento cognitivo e emocional.
A diferença entre celular e tv consiste, principalmente, no fato de podermos carregar o primeiro para qualquer lugar, o que facilita estar sempre conectado. E gerações anteriores tinham um tempo pequeno, quando crianças, na frente da televisão, visto que sua programação era diversificada em assuntos de adultos e programas infantis.
Hoje a televisão pode ser acessada por um tempo infinito, sem propagandas, pelas plataformas de streaming, deixando as crianças na frente das telas por um tempo absurdamente maior, sem o tédio necessário que a infância “de antigamente” tinha – e que a levava criar brincadeiras e sair da sala.
Falar de geração não é simples, pois é um dos aspectos que perpassa nossa formação social – e que varia segundo a classe, raça e gênero. Porém, numa sociedade massificada, os indivíduos, independente dos agrupamentos sociais que pertencem, tendem a incorporar processos que muitas vezes não fazem sentido para sua realidade imediata. É daí que surgem crianças e adolescentes pobres com discursos de coach vencedor e que Felca discorreu sobre a questão da desigualdade. Afinal, todos querem vencer na vida, não?
E se nossa formação social e identitária se resume aos likes que recebemos, o que fazer quando o número esperado não corresponde ao atingido? Como lidar com deslikes e comentários negativos? E se o conteúdo que viralizou não foi para elogiar, mas para zombar? E como manter o dinheiro recebido em uma publicação para manter o canal monetizado? O que nos submetemos para isso? Quais reflexos disso na nossa formação, na formação de crianças e jovens, crescendo com expectativas de likes e emojis?
A preocupação de Felca com a adultização é correta, não porque elas estão produzindo conteúdos que adultos consomem, mesmo os conteúdos inocentes, voltados para um público de mesma idade, são crianças que estão trabalhando horas e horas de seus dias ao invés de brincarem e estudarem. Combater o trabalho infantil virtual deverá ser nossa nova luta para a proteção da infância, que precisa de socialização real para se humanizar. E nenhum like, nunca, poderá substituir o afeto real.














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