Por muito tempo, o esgotamento emocional foi tratado como uma falha individual. Quem não aguenta a pressão é rotulado como fraco, sensível demais ou pouco resiliente. Mas a ciência, a clínica e a realidade cotidiana contam outra história: o burnout emocional não nasce da incapacidade de suportar a vida — ele nasce do excesso contínuo de exigência, cobrança e sobrecarga sem pausa.
Vivemos em uma sociedade que normalizou o cansaço extremo. Estar sempre ocupado virou sinônimo de valor. Descansar passou a ser visto como privilégio ou preguiça. E sentir-se exausto emocionalmente, triste ou vazio é frequentemente interpretado como falta de força interior. Esse discurso não apenas é injusto, como também é perigoso.
O burnout emocional é um estado de esgotamento profundo que vai além do cansaço físico. Ele afeta a motivação, a capacidade de sentir prazer, a empatia, a memória e até o funcionamento do corpo. Pessoas em burnout não estão apenas cansadas: elas estão drenadas por dentro.

Diferente do estresse pontual, o burnout surge quando a pessoa é submetida por muito tempo a demandas excessivas sem tempo suficiente para recuperação emocional. É comum em profissionais que lidam com alta responsabilidade, pressão constante, ambientes competitivos, cobranças invisíveis e pouco reconhecimento. Mas também aparece em mães sobrecarregadas, cuidadores, mulheres que acumulam múltiplos papéis, pessoas neurodivergentes tentando se adaptar a um mundo que não foi feito para elas.
O problema não está na falta de resiliência, mas na romantização do “dar conta de tudo”.
A neurociência mostra que o cérebro humano não foi projetado para funcionar em estado permanente de alerta. Quando a exigência é constante, o sistema nervoso entra em modo de sobrevivência. Hormônios como o cortisol permanecem elevados, prejudicando o sono, o humor, a imunidade e a saúde mental. Aos poucos, o corpo começa a dar sinais: irritabilidade, lapsos de memória, dores inexplicáveis, crises de choro, apatia, ansiedade intensa ou sensação de vazio.
Muitos ignoram esses sinais por medo de parecer fracos. Continuam funcionando no automático, até que o colapso chega. E quando chega, costuma ser mal compreendido. Ouve-se frases como: “Você precisa ser mais forte”, “É só se organizar melhor”, “Todo mundo está cansado”. Poucos perguntam: quem está exigindo tanto dessa pessoa?
O burnout emocional também revela uma falha coletiva. Ambientes que exigem performance constante, disponibilidade integral e perfeição emocional adoecem pessoas. Não é natural estar sempre bem, produtivo, sorridente e eficiente. Isso não é saúde mental — é sobrevivência disfarçada de sucesso.
Especialmente em mulheres, o burnout costuma ser silencioso. Muitas aprendem desde cedo a suportar, a cuidar de todos, a não reclamar. São elogiadas pela força, mas esquecidas no cuidado. Quando adoecem, sentem culpa por parar. Como se descansar fosse desistir.
Reconhecer o burnout emocional é um ato de lucidez, não de fraqueza. É entender que limites não são falhas, são necessidades biológicas e emocionais. Cuidar da saúde mental não é luxo — é prevenção.
Falar sobre burnout é urgente porque ele não se resolve apenas com férias curtas ou frases motivacionais. Ele exige revisão de rotinas, expectativas, relações e, muitas vezes, do modo como a pessoa aprendeu a se cobrar. Exige escuta, acolhimento e, em muitos casos, acompanhamento profissional.
Enquanto continuarmos tratando o esgotamento como um problema individual, continuaremos adoecendo pessoas boas, competentes e sensíveis. O burnout emocional não é sinal de fraqueza. É sinal de que alguém foi forte por tempo demais, sozinho demais e exigido além do que era humano suportar.
Cuidar da mente também é um ato de coragem. E, às vezes, a maior resiliência está em parar.
Dra Pollyana Vieira
Neurocientista Especialista em Comportamento e Desenvolvimento Humano
SBNeC n° 16557/21
Psicanalista
Analista do Comportamento – ABA














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