A irritação raramente surge do nada. Na maioria das vezes, ela é o resultado final de um acúmulo silencioso: excesso de estímulos, demandas emocionais, pressões sociais e a constante necessidade de adaptação. Esse fenômeno é conhecido como sobrecarga — um estado em que o cérebro ultrapassa seu limite de processamento e passa a funcionar em modo de alerta.
Em pessoas autistas, esse processo tende a ser ainda mais intenso. O cérebro autista costuma perceber o mundo com maior sensibilidade sensorial e cognitiva. Sons, luzes, cheiros, texturas, múltiplas informações ao mesmo tempo e até interações sociais podem ser registrados de forma amplificada. O que para muitos é apenas “barulho de fundo”, para o autista pode ser uma avalanche de estímulos simultâneos.
Quando o cérebro não consegue filtrar, organizar ou priorizar essas informações, ocorre uma ativação constante do sistema de estresse. A energia mental passa a ser usada para tentar “aguentar”, e não para regular emoções. Nesse ponto, a irritação deixa de ser uma reação emocional simples e passa a ser um sinal neurológico de exaustão. O corpo e a mente pedem pausa, previsibilidade e segurança.

Outro fator importante é o esforço contínuo de adaptação social. Muitas pessoas autistas passam o dia inteiro mascarando comportamentos, controlando impulsos e tentando responder às expectativas do ambiente. Esse esforço invisível consome recursos cognitivos profundos. Quando esses recursos se esgotam, a tolerância cai drasticamente, e pequenas frustrações podem desencadear reações intensas.
É fundamental compreender que, no autismo, a irritação não é falta de educação, imaturidade ou descontrole proposital. Ela é, na maioria das vezes, um pedido de socorro do sistema nervoso sobrecarregado. Ignorar esse sinal pode levar a crises mais severas, enquanto reconhecê-lo permite intervenções simples, como redução de estímulos, pausas sensoriais e ambientes mais previsíveis.
Entender a relação entre sobrecarga e irritação é um passo essencial para uma sociedade mais empática. Quando ajustamos o ambiente, e não apenas exigimos adaptação do indivíduo, promovemos saúde mental, inclusão real e relações mais humanas — para pessoas autistas e para todos nós.
Dra Pollyana Vieira
Neurocientista Especialista em Comportamento e Desenvolvimento Humano
SBNeC n° 16557/21
Psicanalista
Analista do Comportamento – ABA














Bom dia! gosto muito de lê cada linha,e aprendendo a cada dia com Dr.pollyana vieira
Me identifiquei nesse texto. Parabéns.