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    “Antes do Grito, Havia Culpa: a autocrítica que se transforma em explosão”

    Em muitas situações, as crises vivenciadas por pessoas no Transtorno do Espectro Autista (TEA) são interpretadas de forma equivocada como “raiva”, “falta de educação” ou até “violência gratuita”. Essa leitura superficial ignora um ponto central: na maioria das vezes, não se trata de agressividade intencional, mas de um colapso emocional e neurológico diante de uma sobrecarga intensa — interna e externa.
    – Da discussão à crise
    O que para um neurotípico pode ser apenas uma discussão, para o autista pode se transformar rapidamente em uma crise. Isso acontece porque, durante esse pico de estresse, áreas do cérebro responsáveis pelo controle inibitório e pela regulação emocional ficam comprometidas. A pessoa não escolhe perder o controle — ela perde porque não consegue sustentar o controle naquele momento.
    Nessas crises, a fala pode se tornar agressiva, o corpo pode reagir com impulsividade e, em casos mais graves, pode haver agressões físicas. Não por maldade, mas por desespero. É uma tentativa primitiva de cessar a dor, o estímulo, a invasão emocional que se tornou insuportável.
    Pessoas autistas, especialmente adolescentes e adultos, costumam carregar um nível elevado de autocrítica. Elas sabem que têm dificuldades, reconhecem comportamentos rígidos, falhas de comunicação, explosões emocionais ou limitações sociais. Muitas sofrem profundamente por isso, mas ainda não possuem recursos neurológicos e emocionais suficientes para exercer o autocontrole esperado em situações de estresse extremo.
    •A soma invisível das sobrecargas
    O cérebro autista processa estímulos de maneira diferente. Sons, palavras, olhares, cobranças, ironias e acusações podem ser percebidos de forma amplificada. Quando alguém “cutuca” uma ferida emocional — apontando erros, insistindo em mudanças imediatas ou cobrando comportamentos que a própria pessoa já condena em si mesma — ocorre uma soma de sobrecargas:
    •Sensorial (barulho, tom de voz, ambiente);
    •Emocional (culpa, vergonha, frustração);
    •Cognitiva (dificuldade de organizar pensamentos e responder);
    •Social (sensação de rejeição, julgamento ou invasão).
    O resultado dessa soma não é uma reação racional, mas um estado de alerta máximo do sistema nervoso. O corpo entra em modo de defesa. É como se tudo estivesse, de fato, “à flor da pele”.
    * A autocrítica silenciosa que ninguém vê
    Um dos aspectos mais ignorados é que, após a crise, a pessoa autista geralmente sofre ainda mais. Vêm a culpa, a vergonha, o arrependimento profundo. Ela revive mentalmente o episódio, se acusa, se pune emocionalmente. Ou seja, aquela crítica externa que desencadeou a crise muitas vezes é desnecessária — o autista já é seu crítico mais severo.
    Famílias, amigos e colegas de trabalho, ao não compreenderem esse processo, acabam reforçando um ciclo de dor: cobram → a crise explode → culpabilizam → a autocrítica se intensifica → novas crises se tornam mais prováveis.
    * O caminho da compreensão e da prevenção
    Compreender que crises não são “frescura”, “falta de limites” ou “mau caráter” é o primeiro passo. O segundo é aprender a prevenir: ajustar a comunicação, respeitar limites, evitar confrontos em momentos de desregulação, oferecer pausas, validar sentimentos e buscar intervenções terapêuticas adequadas.
    Autocontrole não se constrói apenas com cobrança, mas com segurança emocional, previsibilidade e apoio. Quando o ambiente muda, o comportamento também muda.
    Falar sobre isso é essencial para quebrar estigmas e construir relações mais humanas. Porque, por trás de uma crise que parece raiva, quase sempre existe alguém que está apenas tentando sobreviver à própria dor.

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