Para muitas pessoas autistas, crescer e viver sob o cuidado de uma mãe excessivamente controladora pode representar um dos maiores desafios emocionais de sua trajetória. Não por falta de amor — quase sempre há amor —, mas por uma incompreensão profunda sobre o funcionamento do cérebro autista, seus limites, sua rigidez cognitiva e, sobretudo, sua necessidade de autonomia respeitada.
O autismo é marcado, entre outras características, por padrões de comportamento mais rígidos, necessidade de previsibilidade, dificuldade com mudanças abruptas e uma forma singular de interpretar o mundo. Esses comportamentos não são escolhas conscientes, tampouco “birra” ou teimosia. Eles fazem parte da organização neurológica do indivíduo autista. Quando essa rigidez natural encontra uma figura materna que precisa controlar cada passo, decisão e movimento da vida do filho, o resultado costuma ser sofrimento silencioso.

Mães controladoras, muitas vezes movidas pelo medo, pela ansiedade ou por crenças próprias, tendem a interpretar a rigidez do filho autista como algo que precisa ser corrigido, moldado ou dominado. O problema é que, ao tentar impor controle absoluto — sobre horários, escolhas pessoais, relações, carreira, aparência ou até emoções —, essas mães acabam anulando a subjetividade do indivíduo autista. A mensagem implícita que se instala é devastadora: “Você não sabe viver sem mim” ou “Você não é capaz de decidir por si”.
Com o tempo, esse controle constante pode gerar consequências profundas. Pessoas autistas submetidas a esse tipo de dinâmica desenvolvem altos níveis de ansiedade, sentimento crônico de inadequação, medo de errar, dependência emocional e, em muitos casos, dificuldade de reconhecer seus próprios desejos. A rigidez, que já faz parte do transtorno, tende a se intensificar, não por característica do autismo em si, mas como resposta ao ambiente opressor.
Outro ponto pouco discutido é que o controle excessivo pode mascarar a verdadeira necessidade do autista: apoio, mediação e compreensão. Apoiar não é controlar. Orientar não é invadir. Cuidar não é decidir pelo outro. A pessoa autista, mesmo com suas limitações, precisa ser vista como sujeito — e não como extensão da mãe.
Quando não há espaço para autonomia, o autista aprende a se calar. Aprende a mascarar seus sentimentos para evitar conflitos. Aprende a obedecer para sobreviver emocionalmente. E esse silenciamento interno pode levar, na vida adulta, a quadros de depressão, burnout autista e rupturas familiares profundas.
É preciso romper com a ideia de que controle é proteção. Para pessoas autistas, proteção verdadeira nasce do respeito ao ritmo, da escuta ativa, da validação emocional e da construção gradual de independência. Mães também precisam de acolhimento, orientação e, muitas vezes, de apoio psicológico para compreender que soltar não é abandonar — é permitir que o outro exista.
Falar sobre esse tema não é atacar a maternidade, mas ampliar a consciência. O amor que liberta é aquele que reconhece limites, aceita diferenças e entende que o desenvolvimento de uma pessoa autista não acontece sob pressão, mas sob segurança emocional.
Respeitar o autismo é, antes de tudo, respeitar a individualidade de quem vive dentro dele.
Dra Pollyana Vieira
Neurocientista Especialista em Comportamento e Desenvolvimento Humano
SBNeC n° 16557/21
Psicanalista
Analista do Comportamento – ABA














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Excelente! Muito interessante esses apontamentos de controle excessivo e reconhecimento de limites!
Gostei muito, matéria agradável.
Parabéns.