Nossa Gente

    Passar o fim de ano sozinha depois de 23 lutos

    Como perder as pessoas que eu amo me fez desejar silêncio, solitude e eu parei de performa

    pra ler ouvindo 📚

    Esse ano eu passei o Natal sozinha em casa. Sozinha não, com minha mãe e nossas gatas. E assim será o Ano Novo. Não por falta. Por excesso. De tudo. Esse era um “desejo” antigo e, finalmente, tive “coragem” de bancá-lo e sustentá-lo. Fim de ano sempre me deixa triste, cansada e a obrigação da performance da alegria, do entusiasmo e do vazio barulhento que se forma me deixa ainda mais exausta. Logo, a coisa mais acertada é ficar em casa, cozinhar o que gosto, assistir o que quero, seguir uma rotina menos rígida, sem tanto trabalho e com mais leitura e descanso. Aparentemente, deu certo.

    Mas, escrevo esse post para dizer que nem sempre foi assim. Já tivemos muitos momentos de casa muito cheia. E, neste ano, dando entrevista para o podcast Convite ao Pensar, me foi perguntando, se eu pudesse escolher um momento da minha vida e voltar pra ele, qual eu escolheria e eu, rapidamente lembrei dessa foto que ilustra essa news de hoje e respondi: quando era todo mundo vivo.

    Sinto muito saudade não só pela nostalgia de tempos mais simples (anos 1980 e anos 1990 – sim, já virei a pessoa que diz: no meu tempo que era bom), mas das pessoas que já se foram. Nesta foto, os lugares vazios já somam quase os que estão cheios e compreender que a vida é assim e que não passamos de uma memória que alguém mantém me é, especialmente, doloroso.

     

    Certa vez, reclamei com meu antigo analista, que eu não me conformava que tudo que restava era uma memória. Tempos depois, precisei elaborar (acho que nunca terminarei) a morte dele e entender que ele também seria, a partir dali, uma memória e nada mais que isso.

    Chega um tempo que falta tempo e energia para elaborar memórias e tantas perdas. Num espaço de um ano e um mês eu perdi 23 pessoas que eu gostava, conhecia, convivia ou tinha uma história, entre elas meu pai, uma amiga próxima, uma amiga muito querida que não nos falávamos sempre, mas que marcou muito minha vida, tios, tias-avós, pais de amigos, pessoas que construíram e fizeram parte da minha história.

    Teve um período que em duas semanas eu fui em cinco velórios. Não existe registro simbólico que dê conta de tanta perda e dessa rotina de ir em velórios e de tudo que isso representa, por mais que eu tente cuidar da minha saúde mental.

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    E neste ano essas perdas todas e estes lutos seguidos cobraram – e estão cobrando – o que valem na vida de alguém. É absolutamente dolorido e enlouquecedor enterrar um pai. Enterrar amigos também. Enterrar pais de amigos idem.

    Uma colega leu meu livro “gasolina & fósforo” e a devolutiva foi: senti que existe um luto crônico. Fui ler mais sobre, para além de luto e melancolia do Freud e, não sei se é o que tenho. Tenho levado para análise, mas, por vezes, sinto não ser suficiente e, me coloquei a pensar desde quando eu entrei em luto pela primeira vez e que entre 1993 e 1995 perdi quatro pessoas absolutamente importantes (meu tio, minha avó, meu irmão e uma amiga de 7 anos) e que isso bagunçou por demais minha vida. Talvez, inclusive, aí tenha surgido meu carisma “inesgotável” e minha necessidade de preencher qualquer vazio existente na tentativa de ser amada. Talvez aí eu tenha fortalecido ainda mais um sinthoma. Talvez tudo que eu sinta, desde então, seja a evitação do luto, que é inevitável.

    Minha vida é marcada por perdas muito significativas: a melhor amiga de infância, a melhor amiga da faculdade, muitos familiares, o analista.

    o que sobrou de nós depois que a borracha dos anos

    foi forçada contra a temperatura das nossas memórias?

    Em todas as vezes, tentei, o mais rápido possível, sair dos lutos. Óbvio que não consegui. E nem sei se algum dia consegui sair de algum deles. Talvez eu seja só uma acúmulo de perdas transformando os momentos em que a morte ainda não tinha me atravessado como quem procura seu objeto a.

    Fato é que neste ano eu simplesmente não dei conta. Ou parei de fingir que dou. Parei de performa. E falei disso. Avisei pessoas com quem trabalho e precisei parar, porque senão, colapsaria.

    Sinto que decepcionei muita gente: empregadores, colegas de trabalho e, sobretudo meus amigos. Muitos não conseguiram compreender o tamanho da dor que me ronda. É simplesmente insano que se tenha que enterrar 23 pessoas das quais se nutre afeto, entre elas, pessoas muito presentes e que me ajudaram a ser quem eu sou. É enlouquecedor lidar com a ausência na casa, na mesa, no bar da rua, no supermercado.

    Só quem já lidou com um luto próximo sabe como é ver uma pessoa na rua e confundí-la com quem já se foi. Só quem já enterrou alguém que amava muito sabe como é avassaladora a dor de “esquecer” por alguns instantes que essa pessoa não pode mais ser sua interlocutora e pensar em contar algo para ela.

    Não sei, sequer, nomear o que sinto, para além de cansaço e exaustão. Mas, simplesmente não consigo mais performa. Ontem recusei convite para estar com amigos e para ir num samba, duas coisas pelas quais sou apaixonada e gosto muito. Mas, tenho muito pouco registro simbólico para rir, interagir, ouvir e dar risada em ambientes sociais.

    Saio a trabalho, mas não mais do que isso e o famoso “pra me ver tem que me contratar” virou uma realidade. Não consigo compromissos esvaziados mais.

    Às vezes penso que o ideal seria fazer nada com amigos: simplesmente sentar e ver a vida passar, sem que isso precisasse de muitas combinações, performances, gastos, etc. Só presença. Mas, sair me parece cada vez mais complicado e estar em espaços onde minha dor é ignorada me machuca mais ainda.

    Sim. Estou cheia de lamento e chorosa. Nunca fui de lamúrias, mas, me parece impossível não dizer – e de alguma forma, justificar – sobre como me comportei neste ano e como muita coisa pareceu, de fato, muita coisa.

    No México, celebram a morte de uma forma menos dolorosa. Mais colorida, festiva e, se lembrando dos mortos, para mantê-los entre nós. Fiz uma lista, com meus mortos, no meu caderninho. Não os esqueço, é claro. Mas organizo ali minhas memórias. É um jeito que encontrei. Aceito sugestões de outros.

    Sinto que não sou, nem de longe, a pessoa que começou nesta vida. Sou quem fui me tornando à medida que fui me despedindo de quem amo. Uma amiga disse: você precisa desconhecer gente, assim, para de perder tanta gente. É engraçado, mas insensível. Na verdade, quem eu amo poderia dar um tempo. Não morrer tanto. E quem me cerca poderia acolher mais. Talvez, de forma inconsciente, essa frase tenha me dado medo de conhecer mais pessoas e também perdê-las, uma vez que, inclusive quem está vivo se afastou. Ninguém quer alguém tão cercado por mortes e perdas perto. Nem alguém de luto. Uma colega me disse: o luto sensibiliza na primeira semana. Depois, todo mundo volta pra suas vidas, suas gargalhadas, suas performances. Ninguém suporta, por muito tempo, alguém enlutado perto. Imagina um luto que não acaba e se renovou por 23 vezes. Num ano de 12 meses, foram duas mortes por mês, proporcionalmente. E eu nem contei meu gato, que também morreu nesse período. E tudo isso se deu depois anos depois que meu analista morreu e também meu cachorro.

    Como não estar completamente quebrada? Ainda sim, junto meus cacos. Escrevo. Venho aqui e tento. E, talvez tentar seja a grande questão. Mas que é cansativo, isso é.

    Conseguir chegar aqui viva é uma vitória, haja vista que por muitos dias, me levantar e fazer as coisas corriqueiras: trabalhar, comer, tomar banho, fazer exercício, me pareceram algo impossível. Não consegui entregar o entretenimento que sempre entreguei. Ainda sim, fiz coisas bonitas e importantes.

    Sendo muito otimista, o “lado bom” disso é que eu me tornei menos tolerante. E ser intolerante, no meu caso, é uma boa coisa. Eu passei a dizer não sem tanto peso e culpa. Passei a externar o que me incomoda e colocar limite em muitas relações unilaterais. Resumindo: perdi o carisma.

    Meu carisma está seletivo e é claro que eu tenho bons momentos e às vezes estou animada e topo programas em que não sereia acolhida, mas que, de algum jeito, vou me divertir. Às vezes dá liga. Mas, na maior parte do tempo, escolho não ignorar essa dor toda que me ronda. Deixo-a entrar e, por vezes, sirvo um café e até convido meus monstros a dançar.

    Temos feito coisas bonitas juntos. Uma delas foi um livro. Como diria Don L: com minha melhor raiva e com todo meu amor. E sim, eu sinto muita raiva. Tantos lutos me deixam com uma raiva absurda.

    Recentemente reli o “O ano do pensamento mágico”, da Joan Didion e me enxergar no luto dela me fez compreender algumas coisas, como a raiva que a gente sente: de quem partiu e nos abandonou, daquele amor que acabou junto com aquela pessoa, de quem ficou, de quem não entende que é uma dor permanente, de quem insiste que é preciso superar porque “já faz tempo”, de quem não pergunta como você está se sentindo e de quem não oferece presença real, mas quer exigir a sua a qualquer custo em eventos sociais marcados pelo vazio e pela performance.

    Sinto que envelheci e nem foi só de idade. Já não quero mais performar, e, principalmente, assistir às performances alheias tentando me impressionar e impressionar os presentes com suas mentiras. Eu só queria um pouco mais de tempo com quem eu amo. E tempo este fazendo nada. Sendo feliz, como éramos no quintal de casa quando tudo que tínhamos era nós mesmos e uma fé absoluta de que tudo ficaria bem.

    Não ficou.

    Mas, ainda sim, luto pelo direito de celebrar. Mas, talvez eu esteja celebrando em doses diferentes: um drink num dia quente, uma comida feita por mim mesma, uma série no sofá com minha gata em cima de mim, um livro que quero ler há muito tempo e simplesmente não consigo. Uma viagem. Reuniões pequenas, com poucos amigos.

    Talvez crescer seja isso também: aprender a escolher o silêncio sem romantizá-lo, o recolhimento sem culpa, e aceitar que algumas saudades não pedem solução – apenas espaço.

    Hoje, eu fico. Em casa. Com quem ficou. E sigo.


    esquinas incandescentes*

    acenando para tudo que está acima das nossas cabeças

    no final daquele quarteirão, as janelas abertas, o pé de pitanga

    viramos as esquinas incandescentes das nossas existências

    nos perguntando se é possível passar pela vida sem tragédias

    naquele ano, quatro delas atravessaram a tessitura da nossa pele

    ainda não sabíamos ser possível passar dias inteiros no céu em aviões

    e aprendemos que a tragédia não é o momento, mas a lembrança

    escrevemos para nos agarrar a algo daqueles dias

    teríamos sobrevivido sem a música e o rap de todas as tardes?

    sair dali, desfazer aquele nó na garganta, correr com pés nas poças

    os refrões de jazz e r&b ergueram nossas cabeças

    toda música combinada ao balanço quente deu sentido às nossas existências

    hoje, se eu ainda me deitar de costas e cerrar bem a retina

    clean up woman ou doo woop tocando, consigo enxergar

    nós todas reunidas em casa outra vez, todas amigas

    você consegue lembrar de quando éramos todas vivas?

    o que sobrou de nós depois que a borracha dos anos

    foi forçada contra a temperatura das nossas memórias?

    nove anos e nossos corações pra lá de partidos

    era só nosso bairro, mas poderia ser o bronx
    as gargalhadas como uma espécie de confronto

    para as ruas que ameaçavam, viscerais, nos engolir

    dos quintais, observamos muito a vida acontecer

    lá fora e o que continua nos mantendo por aqui

    nesse tempo toda canção faz referência e saudade

    nossa própria história desabando sobre as ruínas

    revelando toda essa gente embaixo dos escombros

    a luz daqueles dias intermináveis se derramando nos medos

    um lugar perigoso demais para quem tem a cabeça no lugar

    lembra quando éramos crianças famintas por mundo?

    comida encharcada de óleo, o tecido rasgado das nossas roupas

    por todos os becos, nossos corpos contando histórias ao mundo

    soul food para aquecer as lembranças da luz dos verões

    tudo que faz falta se espalhando pelas nossas vozes

    a intensidade do nosso desejo pela sobrevivência
    pulsões infinitas e quem é que vai se desculpar por isso

    ninguém lá para vê-las saltar, calcanhares suspensos
    sem fôlego, quem saberia que elas poderiam voar?

    o que sobrou de nós depois que a borracha dos anos

    foi forçada contra a temperatura das nossas memórias?

    cruzamos, enfim, as esquinas incandescentes das nossas existências

     

    *o texto acima está no livro “Gasolina & Fósforo”, de minha autoria, publicado em 2022, pelo selodoburro

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