Na semana em que se celebra o ´´9 DE JULHO“ – Movimento Constitucionalista de 1932 – , é oportuno lembrar a epopeia paulista, fato histórico pouco divulgado. A intenção é aqui divulgar alguns acontecimentos vividos por meu pai, Crisólito de Silos, soldado constitucionalista, registrados em um diário.
Estourara a revolução no dia 9 de julho de 1932. Os paulistas, cansados de aguardar Getúlio Vargas cumprir a promessa de redemocratizar o país, pegaram em armas. Reivindicavam uma nova constituição e eleições diretas.

Meu pai, então com 22 anos, e meu tio com 19, alistaram-se nas fileiras paulistas e receberam treinamento na Força Pública do Estado de São Paulo (hoje Polícia Militar). Dias depois foram enviados para combater as tropas federais na região do Rio Paranapanema, divisa com o Estado do Paraná. Aquela área, próxima a Itararé, Buri e Capão Bonito foi palco das mais sangrentas batalhas da resistência paulista.
A luta era desigual. 15 mil soldados do Governo Federal, tropas profissionais , bem treinadas e equipadas, contra 5 mil combatentes constitucionalistas, voluntários em sua maioria.
Os paulistas resistiram durante bom tempo nas barrancas do rio. Sob fogo intenso dos canhões, já sem suprimentos e apoio logístico, tiveram de recuar para as proximidades de Buri. Meu tio recebeu ordem de cobrir a retirada, usando a única metralhadora disponível, até o último cartucho.
Perto de Buri cavaram trincheiras para impedir o avanço das tropas inimigas. Ali permaneceram cercados por muitos dias. Debaixo de chuva e frio, munição escassa, falta de medicamentos para socorrer os feridos, resistiram até o limite.
Quando se alistou, meu pai levou consigo um pequeno manual de instrução militar do tempo em que servira no Tiro de Guerra de Casa Branca. Nas folhas em branco ele escreveu o ´´diário da trincheira“, registrando os acontecimentos de cada dia.
Relatou como havia um sentimento de companheirismo e solidariedade entre os soldados, embora a situação piorasse a cada dia. Eram todos jovens, com a vida pela frente, mas naquele momento o futuro lhes era incerto. Falavam com carinho de seus pais e das namoradas. Riam das piadas de ´´português“. Em alguns momentos era possível ouvir soluços, apesar de nos combates nunca lhes faltar coragem.
O Estado de São Paulo acabou ocupado pelas tropas federais. Com a assinatura do armistício em outubro, a coluna depôs as armas. Terminava ali a epopeia paulista de 32.
Várias vezes reli aquele diário. Meu pai guardava como uma relíquia aquelas folhas amareladas pelo tempo. Ele se orgulhava de ter lutado pela redemocratização do país.
Depois de seu falecimento nunca mais encontrei o diário. Ninguém sabe que fim levou. Isso me dói até hoje.
Por Gilberto Silos














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